Eu não queria mais falar sobre eleições e política neste ano. Mas não é possível calar. Pronunciamentos de líderes evangélicos sobre a política tem me causado revolta e assombro. Não me assombro com pronunciamentos de pseudo-evangélicos, de líderes politiqueiros, dinheiristas e chefes de igrejas-empresas. Revolto-me com pronunciamentos de líderes evangélicos honestos, cristãos comprometidos com a justiça, com a melhoria da vida humana, gente de caráter e testemunho dignos.
De pessoas assim não se poderia esperar pronunciamentos absolutamente néscios, sem um pingo de sabedoria, sem o mínimo de discernimento espiritual que se deveria esperar de líderes dignos. Não conheço todos os pronunciantes, conheço alguns, dentre esses há gente que eu admiro e respeito, embora sempre tenha me preocupado com a falta de clareza nos posicionamentos políticos.
A clareza agora é cristalina! Uma clara confusão entre moralismo e medo, por um lado, e ignorância política por outro. Fizeram-me lembrar de um artigo absolutamente inútil que Robinson Cavalcanti publicou na Ultimato, há meses, denunciando uma suposta conspiração gay e atéia contra a igreja. Contestei tal artigo, mas seu autor não se dignou a me responder. Recebi uma resposta de um líder evangélico, leigo, que dizia mais ou menos o seguinte: "o artigo pode não ter nenhuma prova, nehuma evidência, mas tem razão".
Só posso fazer um apelo: a meu grande amigo e um de meus padrinhos de casamento - retrate-se urgentemente. Voce não merecia estar sendo lembrado por um vídeo esdrúxulo em que demoniza partidos políticos e se vangloria de algo que não passa de falta de conhecimento sobre política e de ausência de discernimento e sabedoria. Voce é muito melhor do que esse vídeo!
Reforço o apelo: a pastores, pastoras, líderes leigos evangélicos honestos - retratem-se. Aprendam. Busquem inteligência política.
Não podemos mais confundir moralismo com medo, passividade com neutralidade política. Não há neutralidade em política. Não há ausência de política no exercício do poder religioso. Não se confundam. não se enganem. As pregações pastorais são, sempre, políticas. São políticas por que exercícios de poder. Só quem não saiu do jardim de infância ainda pensa que política só tem a ver com partidos e eleições. Política tem a ver com o exercício do poder, em todas as relações, em todos os níveis da vida social. Pregação do evangelho é, sempre, política - posto que anúncio do Reino de Deus - poder que questiona todo e qualquer exercício dominador do poder, por pessoas, partidos, leis e instituições.
Evangélicos, aprendamos a viver a integralidade da missão. Não basta afirmar "missão integral", há que se aprender a integralidade da missão - e isto exige inteligência política.
domingo, 26 de setembro de 2010
terça-feira, 21 de setembro de 2010
O olfato de YHWH
No mundo moderno, a filosofia e a ciência subordinaram o olfato (juntamente com o paladar e o tato) à visão e audição, posto que aquele pouco podia oferecer à construção de conceitos, comparativamente aos sentidos da visão e da audição. Montaigne chegou a afirmar (injustificadamente) que um mundo ideal é um mundo inodoro, posto que seria o mundo puro das crianças.
No mundo contemporâneo, o olfato volta a ocupar lugar de destaque na reflexão filosófica e científica, em função de suas aplicações práticas: “Nos dois últimos séculos os odores ganham espaço de investigação e a cultura do corpo desodorizado, motiva a produção imensurável de produtos que mascaram os odores do corpo: desodorantes, cremes, sabões, pós e pomadas. Surge uma nova apropriação do sentido do olfato pelo mercado, através da comercialização dos odores, com produtos médico/sanitários amplamente utilizados pela enfermagem. Incluso ao controle dos odores do corpo, se promovem o diagnóstico, tratamento e vigilância dos odores ambientais em todos os espaços da atividade humana, públicos ou privados.” (ESTÉTICA DOS ODORES: O SENTIDO DO OLFATO E A ENFERMAGEM)
O culto ao corpo agradavelmente aromatizado é profundamente ambíguo. Se, por um lado, exalta a beleza e o prazer; por outro, oculta sob o aroma de perfumes prazerosos o pútrido cheiro da morte que se estende às pessoas excluídas da vida consumista. Por isso, recuperar a discussão bíblica sobre o olfato é importante para a construção de uma teologia relevante para a humanidade contemporânea. Segue um início sugestivo dessa recuperação.
Um aroma ambíguo
Em Êxodo, Levítico e Números é usada 37 vezes a expressão “cheiro suave” referindo-se aos sacrifícios ofertados a Deus, por exemplo: Lv 6:21 “Numa assadeira se fará com azeite; bem embebida a trarás; em pedaços cozidos oferecerás a oferta de cereais por cheiro suave ao Senhor”. O termo incenso é usado 53 vezes nesses mesmos livros, indicando também o aroma que deveria permanecer no templo, especialmente durante os sacrifícios. Em Deuteronômio, porém, o sacrifício não é descrito como “cheiro suave” e somente uma vez é usado o termo “incenso” (33,10). No próprio Pentateuco encontramos a tensão que a visão sacrificial oferecia à reflexão teológica vétero-israelita. Essa tensão está presente sobremodo na tradição profética.
A ambigüidade do odor dos sacrifícios e do incenso está em que eles podem ser um péssimo cheiro perante o Senhor, como no caso da rebelião de Corá em Números 16: “35 Então saiu fogo do Senhor, e consumiu os duzentos e cinqüenta homens que ofereciam o incenso. 36 Então disse o Senhor a Moisés: 37 Dize a Eleazar, filho de Arão, o sacerdote, que tire os incensários do meio do incêndio; e espalha tu o fogo longe; porque se tornaram santos 38 os incensários daqueles que pecaram contra as suas almas; deles se façam chapas, de obra batida, para cobertura do altar; porquanto os trouxeram perante o Senhor, por isso se tornaram santos; e serão por sinal aos filhos de Israel. 39 Eleazar, pois, o sacerdote, tomou os incensários de bronze, os quais aqueles que foram queimados tinham oferecido; e os converteram em chapas para cobertura do altar, 40 para servir de memória aos filhos de Israel, a fim de que nenhum estranho, ninguém que não seja da descendência de Arão, se chegue para queimar incenso perante o Senhor, para que não seja como Corá e a sua companhia; conforme o Senhor dissera a Eleazar por intermédio de Moisés.”
A mesma valoração negativa se faz quando os sacrifícios e o incenso são, ou ofertados a outros deuses, ou encobrem a injustiça. Então, tornam-se abomináveis a YHWH, por exemplo:
(a) Ezequiel 6:13 Então sabereis que eu sou o Senhor, quando os seus mortos estiverem estendidos no meio dos seus ídolos, em redor dos seus altares, em todo outeiro alto, em todos os cumes dos montes, e debaixo de toda árvore verde, e debaixo de todo carvalho frondoso, lugares onde ofereciam suave cheiro a todos os seus ídolos;
(b) Isaías 1:13 Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação. As luas novas, os sábados, e a convocação de assembléias ... não posso suportar a iniqüidade e o ajuntamento solene!
(c) 2 Reis 17:11 (Israel) “... queimaram incenso em todos os altos, como as nações que o Senhor expulsara de diante deles; cometeram ações iníquas, provocando à ira o Senhor”; e 2 Reis 23:5 (Judá) “Destituiu os sacerdotes idólatras que os reis de Judá haviam constituído para queimarem incenso sobre os altos nas cidades de Judá, e ao redor de Jerusalém, como também os que queimavam incenso a Baal, ao sol, à lua, aos planetas, e a todo o exército do céu”.
Em oposição ao regime sacrificial, o Salmo 141:2 “Suba a minha oração, como incenso, diante de ti, e seja o levantar das minhas mãos como o sacrifício da tarde!” apresenta a oração como um perfume que sobe até Deus e o comove a agir favoravelmente!
Estes exemplos mostram que já na discussão teológica do antigo Israel o acesso sacrificial a Deus era questionado. Quando o autor de Hebreus afirma que o sacrifício de Jesus é definitivo e elimina a lógica sacrificial enquanto tal, está dando continuidade a este tipo de reflexão profética sobre a inutilidade do sacrifício. A persistência da lógica sacrificial no Cristianismo revela uma inconsistência nas práticas cristãs. Inconsistência que tem servido para a manutenção de situações de injustiça e opressão, legitimadas pela crença de que o sacrifício é um pequeno preço a ser pago para alcançar a vida eterna ou, na teologia da prosperidade, as bênçãos de Deus no presente. O Deus de judeus e cristãos, porém, não necessita de sacrifícios e abomina a lógica sacrificial. Autores como René Girard e Franz Hinkelammert, críticos da lógica sacrificial, mereceriam ser mais estudados em nossos dias posto que são por demais relevantes em sua celebração acadêmica da vida!
No mundo contemporâneo, o olfato volta a ocupar lugar de destaque na reflexão filosófica e científica, em função de suas aplicações práticas: “Nos dois últimos séculos os odores ganham espaço de investigação e a cultura do corpo desodorizado, motiva a produção imensurável de produtos que mascaram os odores do corpo: desodorantes, cremes, sabões, pós e pomadas. Surge uma nova apropriação do sentido do olfato pelo mercado, através da comercialização dos odores, com produtos médico/sanitários amplamente utilizados pela enfermagem. Incluso ao controle dos odores do corpo, se promovem o diagnóstico, tratamento e vigilância dos odores ambientais em todos os espaços da atividade humana, públicos ou privados.” (ESTÉTICA DOS ODORES: O SENTIDO DO OLFATO E A ENFERMAGEM)
O culto ao corpo agradavelmente aromatizado é profundamente ambíguo. Se, por um lado, exalta a beleza e o prazer; por outro, oculta sob o aroma de perfumes prazerosos o pútrido cheiro da morte que se estende às pessoas excluídas da vida consumista. Por isso, recuperar a discussão bíblica sobre o olfato é importante para a construção de uma teologia relevante para a humanidade contemporânea. Segue um início sugestivo dessa recuperação.
Um aroma ambíguo
Em Êxodo, Levítico e Números é usada 37 vezes a expressão “cheiro suave” referindo-se aos sacrifícios ofertados a Deus, por exemplo: Lv 6:21 “Numa assadeira se fará com azeite; bem embebida a trarás; em pedaços cozidos oferecerás a oferta de cereais por cheiro suave ao Senhor”. O termo incenso é usado 53 vezes nesses mesmos livros, indicando também o aroma que deveria permanecer no templo, especialmente durante os sacrifícios. Em Deuteronômio, porém, o sacrifício não é descrito como “cheiro suave” e somente uma vez é usado o termo “incenso” (33,10). No próprio Pentateuco encontramos a tensão que a visão sacrificial oferecia à reflexão teológica vétero-israelita. Essa tensão está presente sobremodo na tradição profética.
A ambigüidade do odor dos sacrifícios e do incenso está em que eles podem ser um péssimo cheiro perante o Senhor, como no caso da rebelião de Corá em Números 16: “35 Então saiu fogo do Senhor, e consumiu os duzentos e cinqüenta homens que ofereciam o incenso. 36 Então disse o Senhor a Moisés: 37 Dize a Eleazar, filho de Arão, o sacerdote, que tire os incensários do meio do incêndio; e espalha tu o fogo longe; porque se tornaram santos 38 os incensários daqueles que pecaram contra as suas almas; deles se façam chapas, de obra batida, para cobertura do altar; porquanto os trouxeram perante o Senhor, por isso se tornaram santos; e serão por sinal aos filhos de Israel. 39 Eleazar, pois, o sacerdote, tomou os incensários de bronze, os quais aqueles que foram queimados tinham oferecido; e os converteram em chapas para cobertura do altar, 40 para servir de memória aos filhos de Israel, a fim de que nenhum estranho, ninguém que não seja da descendência de Arão, se chegue para queimar incenso perante o Senhor, para que não seja como Corá e a sua companhia; conforme o Senhor dissera a Eleazar por intermédio de Moisés.”
A mesma valoração negativa se faz quando os sacrifícios e o incenso são, ou ofertados a outros deuses, ou encobrem a injustiça. Então, tornam-se abomináveis a YHWH, por exemplo:
(a) Ezequiel 6:13 Então sabereis que eu sou o Senhor, quando os seus mortos estiverem estendidos no meio dos seus ídolos, em redor dos seus altares, em todo outeiro alto, em todos os cumes dos montes, e debaixo de toda árvore verde, e debaixo de todo carvalho frondoso, lugares onde ofereciam suave cheiro a todos os seus ídolos;
(b) Isaías 1:13 Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação. As luas novas, os sábados, e a convocação de assembléias ... não posso suportar a iniqüidade e o ajuntamento solene!
(c) 2 Reis 17:11 (Israel) “... queimaram incenso em todos os altos, como as nações que o Senhor expulsara de diante deles; cometeram ações iníquas, provocando à ira o Senhor”; e 2 Reis 23:5 (Judá) “Destituiu os sacerdotes idólatras que os reis de Judá haviam constituído para queimarem incenso sobre os altos nas cidades de Judá, e ao redor de Jerusalém, como também os que queimavam incenso a Baal, ao sol, à lua, aos planetas, e a todo o exército do céu”.
Em oposição ao regime sacrificial, o Salmo 141:2 “Suba a minha oração, como incenso, diante de ti, e seja o levantar das minhas mãos como o sacrifício da tarde!” apresenta a oração como um perfume que sobe até Deus e o comove a agir favoravelmente!
Estes exemplos mostram que já na discussão teológica do antigo Israel o acesso sacrificial a Deus era questionado. Quando o autor de Hebreus afirma que o sacrifício de Jesus é definitivo e elimina a lógica sacrificial enquanto tal, está dando continuidade a este tipo de reflexão profética sobre a inutilidade do sacrifício. A persistência da lógica sacrificial no Cristianismo revela uma inconsistência nas práticas cristãs. Inconsistência que tem servido para a manutenção de situações de injustiça e opressão, legitimadas pela crença de que o sacrifício é um pequeno preço a ser pago para alcançar a vida eterna ou, na teologia da prosperidade, as bênçãos de Deus no presente. O Deus de judeus e cristãos, porém, não necessita de sacrifícios e abomina a lógica sacrificial. Autores como René Girard e Franz Hinkelammert, críticos da lógica sacrificial, mereceriam ser mais estudados em nossos dias posto que são por demais relevantes em sua celebração acadêmica da vida!
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Deus Imprevisivelmente Fiel
No post anterior destaquei a imprevisibilidade de Deus. No testemunho bíblico, Deus é retratado como imprevisível, mas fiel - imprevisivelmente fiel. Fiel é a pessoa em quem se pode confiar, de quem se pode depender quando necessário. A fidelidade é a permanência, em uma pessoa, das ações e dos valores que permitem a ela, e aquelas com quem ela se relaciona, se re-conhecer e ser re-conhecida. A fidelidade é a permanência na mudança, no devir constante da construção e reconstrução da identidade pessoal, social, cultural, política, religiosa. A fidelidade é a marca dos relacionamentos confiáveis, que dão segurança, estabilidade em meio à incerteza e imprevisibilidade da vida. Segundo Sponville, a fidelidade é a virtude da memória: “É este o dever da memória: piedade e gratidão pelo passado. O duro dever, o exigente dever, o imprescritível dever de ser fiel!” E se fidelidade é o dever da memória, reconhecemos a fidelidade de Javé em sua memória: pois Javé se lembra de seus compromissos, mas se esquece dos pecados de seu povo! Memória que não é só re-viver o passado, mas também re-significá-lo, transformando-o no presente e futuro.
Fidelidade é virtude relacional, e a sua validade depende do objeto de sua atração: "a fidelidade só deve dirigir-se ao que vale, e proporcionalmente – se ouso dizer, já que se trata de grandezas por natureza não-quantificáveis – ao valor do que vale. Fidelidade primeiro ao sofrimento, à coragem desinteressada, ao amor...” Embora não se referindo a Deus, o texto de Sponville é fiel ao caráter de Javé: deus fiel ao seu povo que sofre (Ele é o Deus que ouve o clamor), fiel à salvação de seu povo (desce e liberta corajosamente se solidarizando com o povo que sofre), fiel à aliança que estabelece com os seus (hesed divina, amor misericordioso e fiel que sustenta a relação familiar de Javé com seu povo).
Em meio às vicissitudes da história, Javé permanece fiel, e porque Ele é fiel, também "o justo viverá por sua fidelidade” (Hc 2,4). Javé é fiel sim, mas não previsível. Os caminhos de Deus não são os nossos caminhos, os pensamentos de Javé não são os nossos pensamentos (Is 55,8), por isso somos incapazes de capturar a Sua fidelidade e domesticar Javé conforme nossa imagem e semelhança. No entanto, a fidelidade de Javé não é sinônimo de previsibilidade. Javé é imprevisivelmente fiel: teimoso, se preferirmos um adjetivo menos polido; zeloso, se escolhermos um adjetivo extraído das Escrituras. O povo de Israel celebrava a fidelidade de Javé, mas vez após vez, foi confundido por Javé para aprender que não poderia controlar o seu deus como faziam outros povos do Antigo Oriente. Para aprender que somente Javé é Deus, somente Ele mesmo é Javé – deus e não ser humano.
Fidelidade é virtude relacional, e a sua validade depende do objeto de sua atração: "a fidelidade só deve dirigir-se ao que vale, e proporcionalmente – se ouso dizer, já que se trata de grandezas por natureza não-quantificáveis – ao valor do que vale. Fidelidade primeiro ao sofrimento, à coragem desinteressada, ao amor...” Embora não se referindo a Deus, o texto de Sponville é fiel ao caráter de Javé: deus fiel ao seu povo que sofre (Ele é o Deus que ouve o clamor), fiel à salvação de seu povo (desce e liberta corajosamente se solidarizando com o povo que sofre), fiel à aliança que estabelece com os seus (hesed divina, amor misericordioso e fiel que sustenta a relação familiar de Javé com seu povo).
Em meio às vicissitudes da história, Javé permanece fiel, e porque Ele é fiel, também "o justo viverá por sua fidelidade” (Hc 2,4). Javé é fiel sim, mas não previsível. Os caminhos de Deus não são os nossos caminhos, os pensamentos de Javé não são os nossos pensamentos (Is 55,8), por isso somos incapazes de capturar a Sua fidelidade e domesticar Javé conforme nossa imagem e semelhança. No entanto, a fidelidade de Javé não é sinônimo de previsibilidade. Javé é imprevisivelmente fiel: teimoso, se preferirmos um adjetivo menos polido; zeloso, se escolhermos um adjetivo extraído das Escrituras. O povo de Israel celebrava a fidelidade de Javé, mas vez após vez, foi confundido por Javé para aprender que não poderia controlar o seu deus como faziam outros povos do Antigo Oriente. Para aprender que somente Javé é Deus, somente Ele mesmo é Javé – deus e não ser humano.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
O Deus Imprevisível
Apesar de ortodoxamente afirmarmos que Deus é transcendente, muita vez nossa teologia faz de Deus um imanete e previsível mestre-cerimônias. Sempre que me pego escorregando para esse lamaçal, me lembro da imprevisibilidade de Deus.
A imprevisibilidade de Deus é a salvaguarda de sua liberdade, é a proteção contra a idolatração de Deus, sua redução a um mero gênio da lâmpada, a um mero guardião de interesses pessoais ou nacionais. Houve quem tentasse aprisionar Deus em uma lógica sapiencial duvidosa, contra a qual um livro como o de Jó se insurgiu. Afinal de contas, quem foi o conselheiro de Javé na criação do mundo? Como prever as ações de alguém que é tão sublime e exaltado? De um deus que se mantém oculto, mesmo quando revelado (Is 45,15)? O mistério é característico de Deus, que não age sem revelar seus segredos aos seus servos (Am 3,7), e que tornou plenamente manifesto o mistério da Sua graça fiel em Jesus Cristo.
Deus é imprevisível, mas não arbitrário. Fielmente imprevisível, a sua liberdade não O move de Seus propósitos amorosos, de Seus compromissos solenes. Fidelidade imprevisível, lembrada após o dilúvio, e simbolizada pelo arco da aliança, na bela linguagem mitopoética de Gn 9,8-19. Imprevisibilidade fiel, daquele que jamais se esquece de seu amor, renovando a cada manhã a sua misericórdia, a sua solidariedade para com as pessoas que sofrem (Lm 3,22-23), pois "grande é a tua fidelidade”!
Imprevisível, mas não volúvel. Deus não troca de amores como quem troca de roupa a cada novo dia. Imprevisivelmente fiel, Ele/a é amante constante, jamais se afastando de quem precisa de sua amorosa companhia. Amante fiel de toda a sua criação, Deus não se retira, não se retrai, não a abandona à sua própria sorte. Amante fiel de toda a humanidade que clama, apegou-se a Israel, a ele se afeiçoou, por causa de Abraão, e de Abraão se afeiçoou por causa de toda a humanidade (cf. Dt 7,7-11; Gn 12,1ss). Amante fiel, enviou seu filho amado ao mundo ...
Imprevisível como a vida, imprevisível como o cosmos. Imprevisível como Ele mesmo, Deus é fiel e nos acolhe em sua família, em seu círculo de amizades, de relacionamentos - transcendendo, aí sim, as barreiras de raça, cor, sexo, classe, educação ...
Imprevisível, Deus permanece fiel a toda a criação. O Senhor, acima de tudo, permanece fiel a Si mesmo. Amante e amigo, a sua fidelidade é imprevisivelmente constante e firme. Imprevisivelmente fiel, o compromisso solidário de Deus-Mãe de todos nós se renova a cada instante, renovando conjuntamente toda a sua criação (cf. Is 43,19). Fielmente imprevisível, Deus jamais se rende à mesmice, ao marasmo, ao tradicionalismo, à paralisia do próprio medo. Fielmente imprevisível, faz-se notar por sua coragem de viver entre nós, de habitar em Sua criação, de descer para nos fazer subir (cf. Êx 3,6-10)ao encontro de sua presença cuidadora.
A imprevisibilidade de Deus é a salvaguarda de sua liberdade, é a proteção contra a idolatração de Deus, sua redução a um mero gênio da lâmpada, a um mero guardião de interesses pessoais ou nacionais. Houve quem tentasse aprisionar Deus em uma lógica sapiencial duvidosa, contra a qual um livro como o de Jó se insurgiu. Afinal de contas, quem foi o conselheiro de Javé na criação do mundo? Como prever as ações de alguém que é tão sublime e exaltado? De um deus que se mantém oculto, mesmo quando revelado (Is 45,15)? O mistério é característico de Deus, que não age sem revelar seus segredos aos seus servos (Am 3,7), e que tornou plenamente manifesto o mistério da Sua graça fiel em Jesus Cristo.
Deus é imprevisível, mas não arbitrário. Fielmente imprevisível, a sua liberdade não O move de Seus propósitos amorosos, de Seus compromissos solenes. Fidelidade imprevisível, lembrada após o dilúvio, e simbolizada pelo arco da aliança, na bela linguagem mitopoética de Gn 9,8-19. Imprevisibilidade fiel, daquele que jamais se esquece de seu amor, renovando a cada manhã a sua misericórdia, a sua solidariedade para com as pessoas que sofrem (Lm 3,22-23), pois "grande é a tua fidelidade”!
Imprevisível, mas não volúvel. Deus não troca de amores como quem troca de roupa a cada novo dia. Imprevisivelmente fiel, Ele/a é amante constante, jamais se afastando de quem precisa de sua amorosa companhia. Amante fiel de toda a sua criação, Deus não se retira, não se retrai, não a abandona à sua própria sorte. Amante fiel de toda a humanidade que clama, apegou-se a Israel, a ele se afeiçoou, por causa de Abraão, e de Abraão se afeiçoou por causa de toda a humanidade (cf. Dt 7,7-11; Gn 12,1ss). Amante fiel, enviou seu filho amado ao mundo ...
Imprevisível como a vida, imprevisível como o cosmos. Imprevisível como Ele mesmo, Deus é fiel e nos acolhe em sua família, em seu círculo de amizades, de relacionamentos - transcendendo, aí sim, as barreiras de raça, cor, sexo, classe, educação ...
Imprevisível, Deus permanece fiel a toda a criação. O Senhor, acima de tudo, permanece fiel a Si mesmo. Amante e amigo, a sua fidelidade é imprevisivelmente constante e firme. Imprevisivelmente fiel, o compromisso solidário de Deus-Mãe de todos nós se renova a cada instante, renovando conjuntamente toda a sua criação (cf. Is 43,19). Fielmente imprevisível, Deus jamais se rende à mesmice, ao marasmo, ao tradicionalismo, à paralisia do próprio medo. Fielmente imprevisível, faz-se notar por sua coragem de viver entre nós, de habitar em Sua criação, de descer para nos fazer subir (cf. Êx 3,6-10)ao encontro de sua presença cuidadora.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Recesso Forçado
Pessoal,
voltarei logo a bloguear. Nas últimas semanas tenho tido de atender a prazos e demandas profissionais que fogem ao meu controle, diminuindo ainda mais o tempinho que tenho para o blog.
Abs
voltarei logo a bloguear. Nas últimas semanas tenho tido de atender a prazos e demandas profissionais que fogem ao meu controle, diminuindo ainda mais o tempinho que tenho para o blog.
Abs
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Teologia: ciência de Deus? Conhecimento de Deus? Saber de Deus?
Supostamente este é um blog teológico. Então, que é teologia, afinal de contas? É hora de jogar um jogo, o jogo das definições, das delimitações, das demarcações - melhor ainda, um jogo de desconstrução. Desconstruir é o alter-ego do de-finir (estabelecer o fim), é um in-finir, ou seja, um não-estabelecer-o-fim. Joguemos.
Na Idade Média, preconceituosamente chamada de Idade das Trevas, a definição mais comum da teologia era a de "ciência de Deus". Ciência era um conhecimento certo, verdadeiro, indubitável. Teologia era a ciência de Deus, posto que era a colocação em conceitos da revelação do próprio Deus com o suporte da razão. Por isso, era a rainha das ciências, posto que a ciência mais verdadeira das verdadeiras ciências. Até a filosofia foi colocada sob a teologia (ancilla theologiae), serva da teologia, a senhora da Verdade.
Na Modernidade, primeiro a Filosofia, depois a Ciência (ciências), destronaram a teologia. Ela deixa de ser definida como ciência, e passa a ser conhecimento de Deus. Uma espécie de "ciência de segunda categoria", pois à teologia faltam os principais elementos caracterizadores da Verdadeira Ciência: empiria, replicação da experiência, matematização e modelização, predizibilidade e, mais recentemente, falseabilidade. Se por um tempo a teologia tornou-se ancilla philosophiae, enfim ela se torna inútil, atópica - ou seja, sem lugar na Univer(si)dade, no lugar onde a única Verdade é constituída - o universo da Ciência com sua pretensão de uma teoria única de tudo - a universidade-universalidade-univerdade.
É claro, teólogos e instituições eclesiásticas espernearam. Até hoje há os que tentam refazer o percurso e recolocar a teologia no lugar da Ciência. Quase ninguém mais a pensa como rainha das ciências, mas ainda são muitas as pessoas e instituições que desejam realocar a teologia na Universidade-universalidade-univerdade da Ciência certa e verdadeira. Louvável atitude. Dignificante busca. Salvar a teologia do cativeiro do conhecimento e ressituá-la na liberdade da Ciência.
Digna e louvável mas, a meu ver, equivocada. Prefiro de-finir desconstrutivamente a teologia como um saber. Saber, que tem a ver com sabor, gosto, paladar, prazer. Saber, que tem a ver com sabedoria, saber-viver, viver-bem. Saber, que tem a ver com bem-dizer, bendizer, dizer para-bem. Saber não é nem conhecimento, nem Ciência. Também não é um meio-termo entre conhecimento e Ciência. É, sem-o-ser, anti-conhecimento e anti-Ciência. É, sem-o-ser, mais-que-conhecimento e mais-que-Ciência, menos-que-conhecimento e menos-que-Ciência.
Teologia é um saber que não se encanta com sua própria cria - conceitos, leis, normas, teorias. É um saber que se encanta com o seu caminho - "sabeirar" (viver-saber), saborear, "sabedoriar". Saber-viver-benfazejamente. Não é, como a filosofia, saber-viver-bem, embora também ande nos caminhos da filosofia. Não é, como a ciência, saber-fazer-direito, embora também navegue em águas científicas. Teologia é um saber-fazer-bem-a-alguém. Um saber, para cristãs e cristãos, cujo modelo foi o Messias Jesus, alguém que soube-fazer-bem-a-quem-nem-sempre-recebia-bem-o-bem-feito. Saber-sabor-prazer-sabedoria. Louca-sabedoria, porém, mais sábia que a sabedoria da Filosofia ou da Ciência. Mais sábia, por que sabe que é saber-imperfeito-incompleto-limitado-parcial-temporário-transitório-transeunte.
Deve ser por isso que muita gente não gosta de teologia. Deve ser por isso que muitos teólogos almejam fazer Teologia-Ciência. O saber teológico exige que a gente aprenda a viver no caminho. Teologia é saber navegante, que só aporta para poder voltar a navegar. Aproprio-me infielmente das palavras de Fernando Pessoa:
"Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso".
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar".
Na Idade Média, preconceituosamente chamada de Idade das Trevas, a definição mais comum da teologia era a de "ciência de Deus". Ciência era um conhecimento certo, verdadeiro, indubitável. Teologia era a ciência de Deus, posto que era a colocação em conceitos da revelação do próprio Deus com o suporte da razão. Por isso, era a rainha das ciências, posto que a ciência mais verdadeira das verdadeiras ciências. Até a filosofia foi colocada sob a teologia (ancilla theologiae), serva da teologia, a senhora da Verdade.
Na Modernidade, primeiro a Filosofia, depois a Ciência (ciências), destronaram a teologia. Ela deixa de ser definida como ciência, e passa a ser conhecimento de Deus. Uma espécie de "ciência de segunda categoria", pois à teologia faltam os principais elementos caracterizadores da Verdadeira Ciência: empiria, replicação da experiência, matematização e modelização, predizibilidade e, mais recentemente, falseabilidade. Se por um tempo a teologia tornou-se ancilla philosophiae, enfim ela se torna inútil, atópica - ou seja, sem lugar na Univer(si)dade, no lugar onde a única Verdade é constituída - o universo da Ciência com sua pretensão de uma teoria única de tudo - a universidade-universalidade-univerdade.
É claro, teólogos e instituições eclesiásticas espernearam. Até hoje há os que tentam refazer o percurso e recolocar a teologia no lugar da Ciência. Quase ninguém mais a pensa como rainha das ciências, mas ainda são muitas as pessoas e instituições que desejam realocar a teologia na Universidade-universalidade-univerdade da Ciência certa e verdadeira. Louvável atitude. Dignificante busca. Salvar a teologia do cativeiro do conhecimento e ressituá-la na liberdade da Ciência.
Digna e louvável mas, a meu ver, equivocada. Prefiro de-finir desconstrutivamente a teologia como um saber. Saber, que tem a ver com sabor, gosto, paladar, prazer. Saber, que tem a ver com sabedoria, saber-viver, viver-bem. Saber, que tem a ver com bem-dizer, bendizer, dizer para-bem. Saber não é nem conhecimento, nem Ciência. Também não é um meio-termo entre conhecimento e Ciência. É, sem-o-ser, anti-conhecimento e anti-Ciência. É, sem-o-ser, mais-que-conhecimento e mais-que-Ciência, menos-que-conhecimento e menos-que-Ciência.
Teologia é um saber que não se encanta com sua própria cria - conceitos, leis, normas, teorias. É um saber que se encanta com o seu caminho - "sabeirar" (viver-saber), saborear, "sabedoriar". Saber-viver-benfazejamente. Não é, como a filosofia, saber-viver-bem, embora também ande nos caminhos da filosofia. Não é, como a ciência, saber-fazer-direito, embora também navegue em águas científicas. Teologia é um saber-fazer-bem-a-alguém. Um saber, para cristãs e cristãos, cujo modelo foi o Messias Jesus, alguém que soube-fazer-bem-a-quem-nem-sempre-recebia-bem-o-bem-feito. Saber-sabor-prazer-sabedoria. Louca-sabedoria, porém, mais sábia que a sabedoria da Filosofia ou da Ciência. Mais sábia, por que sabe que é saber-imperfeito-incompleto-limitado-parcial-temporário-transitório-transeunte.
Deve ser por isso que muita gente não gosta de teologia. Deve ser por isso que muitos teólogos almejam fazer Teologia-Ciência. O saber teológico exige que a gente aprenda a viver no caminho. Teologia é saber navegante, que só aporta para poder voltar a navegar. Aproprio-me infielmente das palavras de Fernando Pessoa:
"Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso".
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar".
sexta-feira, 16 de julho de 2010
"Xemá Israel", Dt 6,4-9
"Ouve, ó Israel: YHWH, nosso Deus, YHWH um. Portanto, amarás a YHWH teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força. Que estas palavras que hoje te ordeno estejam em teu coração! Tu as inculcarás aos teus filhos, e delas falarás sentado em tua casa e andando em teu caminho, deitado e de pé. Tu as atarás também à tua mão como um sinal, e serão como um frontal entre teus olhos; tu as escreverás nos umbrais da tua casa e nas tuas portas." Dt 6,4-9
No primeiro verso do texto encontramos a afirmação fundamental da fé judaica: YHWH, nosso Deus, YHWH um. Propositadamente mantive a forma gramatical do texto hebraico “YHWH um” (sem verbo entre o sujeito e o predicativo do sujeito), que tem recebido diversas interpretações e traduções. A afirmação YHWH um destaca diferentes dimensões da fé deuteronômica: (a) YHWH é o único Deus de Israel, no sentido da exclusividade, ou seja, independentemente de quantos deuses tenham existido ou possam existir, para Israel há somente um Deus – YHWH – somente a Ele Israel adora, somente a Ele Israel é fiel, somente YHWH é a fonte de vida para Israel; (b) YHWH é um Deus pluralmente singular, no sentido de que Ele não precisa de outros deuses para repartir as tarefas (no pensamento vétero-oriental, os deuses tinham funções especializadas, por isso era necessário crer em vários deuses que cumpriam essas diferentes tarefas, tais como guerrear, fazer chover, curar doenças, etc.). Como Deus pluralmente singular, YHWH é suficiente, Israel não necessita de nenhum outro Deus para atender as suas necessidades – ou seja, YHWH não é um deus especialista, parcial; e (c) YHWH é o único Deus não feito por mãos humanas, os demais deuses são ídolos, fabricação de mãos humanas e não são capazes de agir. O aniconismo da fé israelita não se restringia apenas à ausência do uso de imagens da divindade, mas era expressão da sua crença na exclusividade e singularidade de YHWH. Por outro lado, a expressão “YHWH nosso Deus” destaca a aliança entre o Senhor e o povo israelita – aliança de amor, amizade, companheirismo, fidelidade e soberania de YHWH sobre Israel e a favor de Israel.
Conseqüentemente, o povo que faz aliança com o fiel e único Deus, é convocado a construir sua identidade a partir do amor a Deus. A escolha do verbo amar no livro do Deuteronômio tem significado muito especial. O livro do Deuteronômio adota e adapta o estilo dos tratados internacionais assírios. Nesses tratados, o rei de um país mais fraco que se associava ao rei de um país mais forte assumia o compromisso de amar o rei mais poderoso. Semelhantemente, os juramentos assírios feitos por oficiais que iniciavam seu serviço ao rei assírio faziam a mesma exigência: o oficial do rei se comprometia a amar ao rei. Assim, ao convocar Israel a amar a YHWH, o Deuteronômio não só destaca a relação de aliança entre Deus e o povo, como afirma que YHWH é o único rei de Israel, o único rei a quem Israel deveria ser fiel, o único rei a quem deveria servir. A repetição da palavra todo(a) e a soma dos termos coração, alma e força indicam que o compromisso de Israel com YHWH deveria ser integral. Assim como YHWH é um, o povo de Israel deveria ser unido em um único propósito: ser fiel a YHWH. O coração do israelita não poderia se dividir entre seu Deus e outros deuses, entre YHWH e outras lealdades.
Dessa forma, as palavras de YHWH, sua instrução (torá), deveriam ocupar o pensamento do israelita o tempo todo, e deveriam ser ensinadas de geração em geração. Eis aqui a peculiaridade deuteronômica em relação à teologia sacerdotal – ao invés de enfatizar a santidade e a pureza, mantidas através da participação na vida litúrgica no Templo, a teologia deuteronômica enfatiza o estudo das palavras de YHWH e sua prática na vida cotidiana, como demonstração da fidelidade de Israel ao seu único Deus. Todo o tempo, todas as dimensões da vida, todas as gerações do povo de Deus são convocadas à meditação, estudo e prática da Torá de YHWH. Se viver dessa maneira, Israel dará testemunho da singularidade e exclusividade de YHWH a todos os povos.
No primeiro verso do texto encontramos a afirmação fundamental da fé judaica: YHWH, nosso Deus, YHWH um. Propositadamente mantive a forma gramatical do texto hebraico “YHWH um” (sem verbo entre o sujeito e o predicativo do sujeito), que tem recebido diversas interpretações e traduções. A afirmação YHWH um destaca diferentes dimensões da fé deuteronômica: (a) YHWH é o único Deus de Israel, no sentido da exclusividade, ou seja, independentemente de quantos deuses tenham existido ou possam existir, para Israel há somente um Deus – YHWH – somente a Ele Israel adora, somente a Ele Israel é fiel, somente YHWH é a fonte de vida para Israel; (b) YHWH é um Deus pluralmente singular, no sentido de que Ele não precisa de outros deuses para repartir as tarefas (no pensamento vétero-oriental, os deuses tinham funções especializadas, por isso era necessário crer em vários deuses que cumpriam essas diferentes tarefas, tais como guerrear, fazer chover, curar doenças, etc.). Como Deus pluralmente singular, YHWH é suficiente, Israel não necessita de nenhum outro Deus para atender as suas necessidades – ou seja, YHWH não é um deus especialista, parcial; e (c) YHWH é o único Deus não feito por mãos humanas, os demais deuses são ídolos, fabricação de mãos humanas e não são capazes de agir. O aniconismo da fé israelita não se restringia apenas à ausência do uso de imagens da divindade, mas era expressão da sua crença na exclusividade e singularidade de YHWH. Por outro lado, a expressão “YHWH nosso Deus” destaca a aliança entre o Senhor e o povo israelita – aliança de amor, amizade, companheirismo, fidelidade e soberania de YHWH sobre Israel e a favor de Israel.
Conseqüentemente, o povo que faz aliança com o fiel e único Deus, é convocado a construir sua identidade a partir do amor a Deus. A escolha do verbo amar no livro do Deuteronômio tem significado muito especial. O livro do Deuteronômio adota e adapta o estilo dos tratados internacionais assírios. Nesses tratados, o rei de um país mais fraco que se associava ao rei de um país mais forte assumia o compromisso de amar o rei mais poderoso. Semelhantemente, os juramentos assírios feitos por oficiais que iniciavam seu serviço ao rei assírio faziam a mesma exigência: o oficial do rei se comprometia a amar ao rei. Assim, ao convocar Israel a amar a YHWH, o Deuteronômio não só destaca a relação de aliança entre Deus e o povo, como afirma que YHWH é o único rei de Israel, o único rei a quem Israel deveria ser fiel, o único rei a quem deveria servir. A repetição da palavra todo(a) e a soma dos termos coração, alma e força indicam que o compromisso de Israel com YHWH deveria ser integral. Assim como YHWH é um, o povo de Israel deveria ser unido em um único propósito: ser fiel a YHWH. O coração do israelita não poderia se dividir entre seu Deus e outros deuses, entre YHWH e outras lealdades.
Dessa forma, as palavras de YHWH, sua instrução (torá), deveriam ocupar o pensamento do israelita o tempo todo, e deveriam ser ensinadas de geração em geração. Eis aqui a peculiaridade deuteronômica em relação à teologia sacerdotal – ao invés de enfatizar a santidade e a pureza, mantidas através da participação na vida litúrgica no Templo, a teologia deuteronômica enfatiza o estudo das palavras de YHWH e sua prática na vida cotidiana, como demonstração da fidelidade de Israel ao seu único Deus. Todo o tempo, todas as dimensões da vida, todas as gerações do povo de Deus são convocadas à meditação, estudo e prática da Torá de YHWH. Se viver dessa maneira, Israel dará testemunho da singularidade e exclusividade de YHWH a todos os povos.
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