Blasfêmia é um termo que saiu fora de moda. No mundo do "politicamente correto" e da "liberdade de expressão", a acusação de blasfêmia (uma fala que desonra a Deus, ou a instituição religiosa que representa Deus, ou a religião mesma) é normalmente vista como retrógrada, autoritária, intolerante - lembremos dos casos em que o Islamismo foi acusado de tal atitude - a condenação de Salman Rushdie e o episódio dos cartoons. Houve casos em que Igrejas cristãs se posicionaram radicalmente contrárias a certos filmes ou obras de arte, recentemente - e embora não tenham usado tal palavra, a acusação de intolerância foi levantada imediatamente.
Como, porém, avaliar o atual momento da campanha eleitoral pela presidência da República? Uma candidata se reúne com lideranças evangélicas(?) e, ao ouvir uma exigência vazia, assume um compromisso inútil (a carta sobre o aborto). Vazia e inútil, por quê? Porque já há vários projetos de lei em discussão no Congresso Nacional sobre a descriminalização parcial ou total do aborto (em acréscimo às exceções já previstas em lei). Ora, a troco de que a futura-esperançosa presidente da república promete que não tomará iniciativa no envio de projetos de lei ao Congresso relativos ao aborto, se tais já existem e se qualquer deputado ou senador pode fazê-lo? e cito a sua carta: "3. Eleita presidente da República, não tomarei a iniciativa de propor alterações de pontos que tratem da legislação do aborto e de outros temas concernentes à família e à livre expressão de qualquer religião no País." Bela e vazia e inútil e astuta promessa - astuta, porque a candidata não disse ser contra a descriminalização do aborto, pois se o tivesse dito, teria de explicar a mudança (suposta ou real) de posição.
Vejamos mais um exemplo de inutilidade: "Com relação ao PLC 122, caso aprovado no Senado, onde tramita atualmente, será sancionado em meu futuro (sic!) governo nos artigos que não violem a liberdade de crença, culto e expressão e demais garantias constitucionais individuais existentes no país." Ora, a troco de que a candidata promete que irá cumprir a Constituição se eleita? Não fará nada mais do que sua obrigação constitucional como principal executiva do país! Isto sem contar com a possibilidade de derrubada do veto presidencial, e sem contar com o Supremo Tribunal Federal, corte que é responsável pela análise de casos de possível violação da constituição por leis ...
Bem, quem pediu ignorantemente o compromisso, recebeu o que pediu. Evangélicos (quem são eles?) abandonaram a altiva alienação da política partidária e assumiram a ignorante participação na campanha. Cá entre nós, muito pior!, mas bota muito nisso!!! Que é tal conversa, senão blasfêmia? Deus é desonrado pela ignorância dos que se pretendem seus representantes, é desonrado pela sagacidade política da candidata que angaria votos cristãos com promessas vazias e compromissos inúteis.
Do outro lado da campanha, nada melhor. Pior, até! A campanha do candidato José Serra conta agora com um novo santinho, em que a frase "Jesus é a verdade e a justiça" recebe o peso da autoridade da assinatura do candidato. Usar o nome e o caráter de Jesus para ganhar votos, senhor candidato, é blasfêmia! Desonra o nome de Deus ser vinculado servilmente a propósitos eleitorais (ou eleitoreiros?) e ser subordinado à autoridade do futuro-esperançoso presidente da República.
E os folhetos e textos - supostamente - de autoria da CNBB contra a candidata Dilma? (o que é negado pelos seus líderes) - cito a fonte da notícia, não da defesa da CNBB: "Neste domingo (17), a Polícia Federal apreendeu em uma gráfica em São Paulo, a pedido do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), folhetos com o texto intitulado "Apelo a todos os brasileiros e brasileiras", assinado pela Comissão em Defesa da Vida do Regional Sul 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O folheto relaciona a candidata do PT à defesa da legalização do aborto. Segundo a gráfica, os folhetos foram encomendados pela Diocese de Guarulhos (SP)." http://www.jusbrasil.com.br/politica/6076943/serra-nega-participacao-do-psdb-em-folhetos-religiosos-contra-dilma). Ultraje à CNBB ter seu nome usado dessa maneira. Blasfêmia! Desonra a Deus que seu Santo nome seja desonrado em prol da fé na vitória eleitoral de tal ou qual candidato(a).
Blasfêmia, porque Deus é desonrado quando candidatos à presidência de uma república democrática reduzem a campanha a questões morais-religiosas e desconsideram os cidadãos não-cristãos que aqui habitam. Como Deus não faz acepção de pessoas, mas faz cair sol e chuva sobre "justos e injustos", a parcialidade religiosa da campanha é uma afronta contra o nome de Deus. (Ah! antes que nos esqueçamos: Jesus morreu e ressuscitou pelos injustos, não pelos justos ...)
Ainda bem que Deus não é um todo poderoso ancião vingador, doutra sorte ai de nós, brasileiros, que seríamos vítimas das iras e maldições da divindade desonrada.
Ainda é tempo de pedir perdão. Quem se habilita?
terça-feira, 19 de outubro de 2010
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Em quem votar nesta eleição? Critérios Teológicos?
Nas últimas semanas tenho acompanhado as polêmicas religiosas relativas à escolha de candidato à presidência da República, em relação às quais já fiz alguns posts aqui no blog. Desejo retomar o assunto, tentando responder às perguntas do título.
1. Começo com a segunda: existem critérios teológicos específicos para a escolha de um(a) candidato(a) a um cargo estatal? Minha resposta é simples e direta: não! Critérios teológicos existem em âmbito mais geral, mais abstrato, tais como justiça social, eqüidade, liberdade, etc. Este tipo de critérios não permite um vínculo causal direto com a escolha de tal ou qual candidato a um cargo qualquer, mesmo o da presidência da república.
Os critérios de cunho mais genérico nos fazem perguntar pelo projeto político do partido (ou coligação de partidos) pelo qual o/a candidato/a concorre ao cargo estatal. Por exemplo: se elegermos tal projeto político, podemos esperar uma melhoria nas condições de vida da população mais pobre? podemos esperar maior eqüidade social e econômica? podemos esperar maior dose de liberdade individual com respeito à lei e aos direitos do próximo?
Colocando a questão da maneira acima, parece-me que fica bastante claro que não é possível formular uma relação causal pura e simples entre opção teológica e opção eleitoral. Entretanto, na linha do último post, tal forma de ver a questão possui uma importante implicação ética: que faremos nós, eleitoras e eleitores, para ajudar o governo eleito a cumprir sua vocação? Que faremos nós para fiscalizar o cumprimento do projeto político que elegemos?
2. Encaminho-me à primeira pergunta. Em quem votar neste segundo turno nas eleições para presidente da república?
Em primeiro lugar: não devemos impor, por razões éticas, ou por razões teológicas, à comunidade eclesial, este ou aquele candidato. Não podemos, do ponto de vista dos direitos fundamentais e da ética cristã, definir o voto de quem quer que seja. Em outras palavras: dizer que um cristão deve votar na Dilma ou no Serra, por razões éticas ou teológicas, é ferir o princípio ético e jurídico das liberdades fundamentais da pessoa humana.
Dito isto, não resta, então, nada a fazer no tocante à escolha de candidatos? Pelo contrário. Há muito que se fazer. Pastores, pastoras, padres, e demais líderes cristãos e de outras religiões, em uma sociedade democrática, deveriam ser pessoas capazes de orientar as suas comunidades sobre o sentido amplo da política e da escolha eleitoral. Orientar, insisto, e não direcionar. Se dizemos que a comunidade deve votar neste ou naquela, contribuímos para a manutenção da dependência ética e intelectual dos membros da comunidade. Em termos teológicos: negamos a nossa vocação de líderes que edificam, e assumimos a condição de líderes que infantilizam.
Podemos ajudar nossas comunidades a formular critérios políticos para a escolha pessoal, livre e responsável. Lembro-me de um post antigo aqui no blog, em que me perguntava que tipo de ensino o jogador de futebol Neymar recebia de seu pastor, na igreja evangélica a que pertence, pois ele dizia não se interessar por política quando perguntado sobre em quem votaria para presidente. Ou não recebia nenhuma orientação, ou recebia a pior possível: uma teologia dualista que afirma que nossa cidadania é apenas e tão somente celestial, de modo que a terrena não tem valor.
Se, voltando à polêmica, nosso voto será decidido especificamente pela questão da descriminalização do aborto, então será um péssimo voto. As questões éticas vinculadas ao aborto são importantes e complexas, não devemos menosprezá-las. Entretanto, o papel da presidência da república transcende em muito a questão ética do aborto. Tem a ver com a ética pública em sentido amplo: governar visando o maior grau possível de justiça para o maior número possível de pessoas em seus contextos sócio-culturais e econômicos. Governar, a partir de um projeto partidário, mas transcendendo esse projeto, visando a melhoria da vida de toda a população. Governar de modo que o compromisso pessoal e individual de cada cidadão com a plena cidadania cresça e se concretize na defesa dos direitos de todas as pessoas.
Quem é capaz de fazer essas coisas?
1. Começo com a segunda: existem critérios teológicos específicos para a escolha de um(a) candidato(a) a um cargo estatal? Minha resposta é simples e direta: não! Critérios teológicos existem em âmbito mais geral, mais abstrato, tais como justiça social, eqüidade, liberdade, etc. Este tipo de critérios não permite um vínculo causal direto com a escolha de tal ou qual candidato a um cargo qualquer, mesmo o da presidência da república.
Os critérios de cunho mais genérico nos fazem perguntar pelo projeto político do partido (ou coligação de partidos) pelo qual o/a candidato/a concorre ao cargo estatal. Por exemplo: se elegermos tal projeto político, podemos esperar uma melhoria nas condições de vida da população mais pobre? podemos esperar maior eqüidade social e econômica? podemos esperar maior dose de liberdade individual com respeito à lei e aos direitos do próximo?
Colocando a questão da maneira acima, parece-me que fica bastante claro que não é possível formular uma relação causal pura e simples entre opção teológica e opção eleitoral. Entretanto, na linha do último post, tal forma de ver a questão possui uma importante implicação ética: que faremos nós, eleitoras e eleitores, para ajudar o governo eleito a cumprir sua vocação? Que faremos nós para fiscalizar o cumprimento do projeto político que elegemos?
2. Encaminho-me à primeira pergunta. Em quem votar neste segundo turno nas eleições para presidente da república?
Em primeiro lugar: não devemos impor, por razões éticas, ou por razões teológicas, à comunidade eclesial, este ou aquele candidato. Não podemos, do ponto de vista dos direitos fundamentais e da ética cristã, definir o voto de quem quer que seja. Em outras palavras: dizer que um cristão deve votar na Dilma ou no Serra, por razões éticas ou teológicas, é ferir o princípio ético e jurídico das liberdades fundamentais da pessoa humana.
Dito isto, não resta, então, nada a fazer no tocante à escolha de candidatos? Pelo contrário. Há muito que se fazer. Pastores, pastoras, padres, e demais líderes cristãos e de outras religiões, em uma sociedade democrática, deveriam ser pessoas capazes de orientar as suas comunidades sobre o sentido amplo da política e da escolha eleitoral. Orientar, insisto, e não direcionar. Se dizemos que a comunidade deve votar neste ou naquela, contribuímos para a manutenção da dependência ética e intelectual dos membros da comunidade. Em termos teológicos: negamos a nossa vocação de líderes que edificam, e assumimos a condição de líderes que infantilizam.
Podemos ajudar nossas comunidades a formular critérios políticos para a escolha pessoal, livre e responsável. Lembro-me de um post antigo aqui no blog, em que me perguntava que tipo de ensino o jogador de futebol Neymar recebia de seu pastor, na igreja evangélica a que pertence, pois ele dizia não se interessar por política quando perguntado sobre em quem votaria para presidente. Ou não recebia nenhuma orientação, ou recebia a pior possível: uma teologia dualista que afirma que nossa cidadania é apenas e tão somente celestial, de modo que a terrena não tem valor.
Se, voltando à polêmica, nosso voto será decidido especificamente pela questão da descriminalização do aborto, então será um péssimo voto. As questões éticas vinculadas ao aborto são importantes e complexas, não devemos menosprezá-las. Entretanto, o papel da presidência da república transcende em muito a questão ética do aborto. Tem a ver com a ética pública em sentido amplo: governar visando o maior grau possível de justiça para o maior número possível de pessoas em seus contextos sócio-culturais e econômicos. Governar, a partir de um projeto partidário, mas transcendendo esse projeto, visando a melhoria da vida de toda a população. Governar de modo que o compromisso pessoal e individual de cada cidadão com a plena cidadania cresça e se concretize na defesa dos direitos de todas as pessoas.
Quem é capaz de fazer essas coisas?
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Política Cristã? Buscando viver eticamente
Exercer eticamente a cidadania é um desafio ético prioritário em sociedades democráticas. A ação cidadã não se restringe ao voto e ao cumprimento das leis do país. A ação cidadã implica, exige que a ação de cada cidadã e cidadão seja dirigida à construção de uma sociedade cada vez mais justa, livre, harmoniosa e pacífica. Ser cidadão significa participar ativamente da vida pública do país, seja na esfera da política partidária, seja na esfera dos movimentos sociais, seja na esfera das instituições governamentais (municipais, estaduais e federais), seja na das instituições mistas (conselhos tutelares, etc.), seja no chamado Terceiro Setor, seja no âmbito micro-social do bairro, da vizinhança. Participar ativamente de modo a que cada vez mais pessoas sejam beneficiadas pela justiça, e se implante mais e mais o bem comum.
No regime político em que vivemos, as relações de poder estruturadas não são apenas as relações especificamente estatais. As sociedades democráticas capitalistas contemporâneas possuem também outros tipos de relações estruturadas de poder: o poder econômico, o poder científico-tecnológico, e o poder midiático. Uma ética política evangélica também tem de formular valores e princípios apropriados para o exercício das relações de poder no âmbito dessas estruturações sociais. Na estruturação econômica capitalista, as relações de poder são declaradamente assimétricas e egocêntricas. Segundo teóricos do capitalismo, o egoísmo é a forma mais eficaz do amor ao próximo: somente quem almeja o maior lucro possível e trabalha para alcançá-lo irá contribuir para o sucesso da ordem econômica. É claro que, para fazer isto, a ética econômica é centrada na concorrência, na competição. Então, agir contra o bem econômico do próximo pode ser visto como uma virtude!
Se reconhecemos que o poder econômico, na atualidade, engloba todos os demais poderes, inclusive o poder estatal, precisamos reconhecer que o maior e mais prioritário desafio ético de nosso tempo é o da transformação das relações de poder econômico. Neste caso, a forma concreta da cidadania deverá ser dupla: resistência contra a fome devoradora do capital e prática criativa da solidariedade econômica, que significa a inclusão do maior número de pessoas possível na atividade econômica e no desfrutar do produto econômico do país (em outras palavras, justa distribuição da renda...). Isto não implica, necessariamente, em uma revolução estrutural econômica de tipo comunista ou socialista. Implica, sim, pelo menos em uma ordenação jurídica e funcional do mercado e do capital que diminuam ao máximo possível os efeitos perversos do sistema capitalistas, e previnam o máximo possível o funcionamento de mecanismos sócio-econômicos injustos.
No âmbito das relações de poder científicas e midiáticas, bastante aparentadas entre si, na medida em que ambas disputam a verdade e a opinião pública, o eixo ético deverá ser o do discernimento, o da apropriação crítica dos produtos técnico-científicos e midiáticos, associado ao da inclusão. No caso específico da tecnologia, a lógica da solidariedade e do bem-comum exige, do ponto de vista ético, que os avanços tecnológicos não fiquem restritos apenas a quem tem dinheiro para pagar por eles. Os avanços tecnológicos precisam beneficiar toda a população, e não apenas uma elite ou um segmento privilegiado da população de um país. No caso específico da mídia, a lógica do bem-comum exige que os conteúdos e os programas veiculados não defendam unilateralmente uma concepção de sociedade ou um conjunto único de valores. A mídia precisa ser democrática, ser porta-voz da pluralidade de opiniões e valores da sociedade democrática, e não só a dos patrocinadores das emissoras. Se no caso da tecnologia é preciso ampliar o acesso aos seus benefícios, no caso da mídia é preciso ampliar o acesso à produção de programas e conteúdos e sua conseqüente difusão.
Enfim, não é possível formular uma ética política evangélica que exclua a natureza não-humana de sua abrangência e preocupação. Dentre as vítimas das relações injustas, dominadoras, de poder no mundo ocidental contemporâneo, a natureza é uma das mais afetadas, se não a mais afetada. Neste caso, o eixo ético político evangélico será o do cuidado da criação divina confiada ao ser humano para seu sustento e prazer. O cuidado deverá ser realizado tanto em dimensão macro-ecológica, quanto em dimensão micro-ecológica. Por exemplo, em âmbito micro-ecológico cada cidadã e cidadão planetário deveria cuidar do consumo da água, do uso de elementos poluentes, da preservação de jardins e praças, etc. Em âmbito macro-ecológico, proteger eco-sistemas da depredação e degradação, proteger espécies ameaças da extinção. Como em todas as outras dimensões da ética política na atualidade, a dimensão ecológica também deverá ser igualmente local e global.
No regime político em que vivemos, as relações de poder estruturadas não são apenas as relações especificamente estatais. As sociedades democráticas capitalistas contemporâneas possuem também outros tipos de relações estruturadas de poder: o poder econômico, o poder científico-tecnológico, e o poder midiático. Uma ética política evangélica também tem de formular valores e princípios apropriados para o exercício das relações de poder no âmbito dessas estruturações sociais. Na estruturação econômica capitalista, as relações de poder são declaradamente assimétricas e egocêntricas. Segundo teóricos do capitalismo, o egoísmo é a forma mais eficaz do amor ao próximo: somente quem almeja o maior lucro possível e trabalha para alcançá-lo irá contribuir para o sucesso da ordem econômica. É claro que, para fazer isto, a ética econômica é centrada na concorrência, na competição. Então, agir contra o bem econômico do próximo pode ser visto como uma virtude!
Se reconhecemos que o poder econômico, na atualidade, engloba todos os demais poderes, inclusive o poder estatal, precisamos reconhecer que o maior e mais prioritário desafio ético de nosso tempo é o da transformação das relações de poder econômico. Neste caso, a forma concreta da cidadania deverá ser dupla: resistência contra a fome devoradora do capital e prática criativa da solidariedade econômica, que significa a inclusão do maior número de pessoas possível na atividade econômica e no desfrutar do produto econômico do país (em outras palavras, justa distribuição da renda...). Isto não implica, necessariamente, em uma revolução estrutural econômica de tipo comunista ou socialista. Implica, sim, pelo menos em uma ordenação jurídica e funcional do mercado e do capital que diminuam ao máximo possível os efeitos perversos do sistema capitalistas, e previnam o máximo possível o funcionamento de mecanismos sócio-econômicos injustos.
No âmbito das relações de poder científicas e midiáticas, bastante aparentadas entre si, na medida em que ambas disputam a verdade e a opinião pública, o eixo ético deverá ser o do discernimento, o da apropriação crítica dos produtos técnico-científicos e midiáticos, associado ao da inclusão. No caso específico da tecnologia, a lógica da solidariedade e do bem-comum exige, do ponto de vista ético, que os avanços tecnológicos não fiquem restritos apenas a quem tem dinheiro para pagar por eles. Os avanços tecnológicos precisam beneficiar toda a população, e não apenas uma elite ou um segmento privilegiado da população de um país. No caso específico da mídia, a lógica do bem-comum exige que os conteúdos e os programas veiculados não defendam unilateralmente uma concepção de sociedade ou um conjunto único de valores. A mídia precisa ser democrática, ser porta-voz da pluralidade de opiniões e valores da sociedade democrática, e não só a dos patrocinadores das emissoras. Se no caso da tecnologia é preciso ampliar o acesso aos seus benefícios, no caso da mídia é preciso ampliar o acesso à produção de programas e conteúdos e sua conseqüente difusão.
Enfim, não é possível formular uma ética política evangélica que exclua a natureza não-humana de sua abrangência e preocupação. Dentre as vítimas das relações injustas, dominadoras, de poder no mundo ocidental contemporâneo, a natureza é uma das mais afetadas, se não a mais afetada. Neste caso, o eixo ético político evangélico será o do cuidado da criação divina confiada ao ser humano para seu sustento e prazer. O cuidado deverá ser realizado tanto em dimensão macro-ecológica, quanto em dimensão micro-ecológica. Por exemplo, em âmbito micro-ecológico cada cidadã e cidadão planetário deveria cuidar do consumo da água, do uso de elementos poluentes, da preservação de jardins e praças, etc. Em âmbito macro-ecológico, proteger eco-sistemas da depredação e degradação, proteger espécies ameaças da extinção. Como em todas as outras dimensões da ética política na atualidade, a dimensão ecológica também deverá ser igualmente local e global.
Moralidade e Voto
Não entrarei no mérito das questões éticas/morais sobre aborto, homossexualismo, etc. Meu tópico é o da vinculação entre posições morais de candidatos à presidência e a definição pessoal do voto por cristãos.
Começo com uma pergunta: se quem muda a legislação do país é o Congresso Nacional, e não o Presidente da República, não seria muito mais importante do que perguntar pela posição do candidato à presidência sobre questões morais, fazer uma sabatina com todos os candidados ao legislativo?
Faço uma segunda pergunta: que relação existe entre a posição de um candidato sobre um tema específico da moralidade e a possibilidade desse candidato, se eleito, realizar um governo que atenda às necessidades e interesses da justiça e do bem comum?
Terceira pergunta: se nós protestantes acreditamos que todos os seres humanos são igualmente pecadores, por que um eventual pecado específico deveria ser usado para negar o voto a uma pessoa? Que critérios teológicos usaríamos para fazer esse tipo de escolha?
Quarta pergunta: não é estranho que candidatos agora fiquem cortejando lideranças evangélicas para garantir sua eleição? Ou você acha que tal afinidade com os evangélicos é algo "de coração"?
Para encerrar: não deveríamos, como cristãos, perguntar aos candidatos a sua posição sobre justiça social, honestidade, integridade, violência, política externa, tributação ... ?
Começo com uma pergunta: se quem muda a legislação do país é o Congresso Nacional, e não o Presidente da República, não seria muito mais importante do que perguntar pela posição do candidato à presidência sobre questões morais, fazer uma sabatina com todos os candidados ao legislativo?
Faço uma segunda pergunta: que relação existe entre a posição de um candidato sobre um tema específico da moralidade e a possibilidade desse candidato, se eleito, realizar um governo que atenda às necessidades e interesses da justiça e do bem comum?
Terceira pergunta: se nós protestantes acreditamos que todos os seres humanos são igualmente pecadores, por que um eventual pecado específico deveria ser usado para negar o voto a uma pessoa? Que critérios teológicos usaríamos para fazer esse tipo de escolha?
Quarta pergunta: não é estranho que candidatos agora fiquem cortejando lideranças evangélicas para garantir sua eleição? Ou você acha que tal afinidade com os evangélicos é algo "de coração"?
Para encerrar: não deveríamos, como cristãos, perguntar aos candidatos a sua posição sobre justiça social, honestidade, integridade, violência, política externa, tributação ... ?
domingo, 26 de setembro de 2010
Evangélicos - Em busca de inteligência política
Eu não queria mais falar sobre eleições e política neste ano. Mas não é possível calar. Pronunciamentos de líderes evangélicos sobre a política tem me causado revolta e assombro. Não me assombro com pronunciamentos de pseudo-evangélicos, de líderes politiqueiros, dinheiristas e chefes de igrejas-empresas. Revolto-me com pronunciamentos de líderes evangélicos honestos, cristãos comprometidos com a justiça, com a melhoria da vida humana, gente de caráter e testemunho dignos.
De pessoas assim não se poderia esperar pronunciamentos absolutamente néscios, sem um pingo de sabedoria, sem o mínimo de discernimento espiritual que se deveria esperar de líderes dignos. Não conheço todos os pronunciantes, conheço alguns, dentre esses há gente que eu admiro e respeito, embora sempre tenha me preocupado com a falta de clareza nos posicionamentos políticos.
A clareza agora é cristalina! Uma clara confusão entre moralismo e medo, por um lado, e ignorância política por outro. Fizeram-me lembrar de um artigo absolutamente inútil que Robinson Cavalcanti publicou na Ultimato, há meses, denunciando uma suposta conspiração gay e atéia contra a igreja. Contestei tal artigo, mas seu autor não se dignou a me responder. Recebi uma resposta de um líder evangélico, leigo, que dizia mais ou menos o seguinte: "o artigo pode não ter nenhuma prova, nehuma evidência, mas tem razão".
Só posso fazer um apelo: a meu grande amigo e um de meus padrinhos de casamento - retrate-se urgentemente. Voce não merecia estar sendo lembrado por um vídeo esdrúxulo em que demoniza partidos políticos e se vangloria de algo que não passa de falta de conhecimento sobre política e de ausência de discernimento e sabedoria. Voce é muito melhor do que esse vídeo!
Reforço o apelo: a pastores, pastoras, líderes leigos evangélicos honestos - retratem-se. Aprendam. Busquem inteligência política.
Não podemos mais confundir moralismo com medo, passividade com neutralidade política. Não há neutralidade em política. Não há ausência de política no exercício do poder religioso. Não se confundam. não se enganem. As pregações pastorais são, sempre, políticas. São políticas por que exercícios de poder. Só quem não saiu do jardim de infância ainda pensa que política só tem a ver com partidos e eleições. Política tem a ver com o exercício do poder, em todas as relações, em todos os níveis da vida social. Pregação do evangelho é, sempre, política - posto que anúncio do Reino de Deus - poder que questiona todo e qualquer exercício dominador do poder, por pessoas, partidos, leis e instituições.
Evangélicos, aprendamos a viver a integralidade da missão. Não basta afirmar "missão integral", há que se aprender a integralidade da missão - e isto exige inteligência política.
De pessoas assim não se poderia esperar pronunciamentos absolutamente néscios, sem um pingo de sabedoria, sem o mínimo de discernimento espiritual que se deveria esperar de líderes dignos. Não conheço todos os pronunciantes, conheço alguns, dentre esses há gente que eu admiro e respeito, embora sempre tenha me preocupado com a falta de clareza nos posicionamentos políticos.
A clareza agora é cristalina! Uma clara confusão entre moralismo e medo, por um lado, e ignorância política por outro. Fizeram-me lembrar de um artigo absolutamente inútil que Robinson Cavalcanti publicou na Ultimato, há meses, denunciando uma suposta conspiração gay e atéia contra a igreja. Contestei tal artigo, mas seu autor não se dignou a me responder. Recebi uma resposta de um líder evangélico, leigo, que dizia mais ou menos o seguinte: "o artigo pode não ter nenhuma prova, nehuma evidência, mas tem razão".
Só posso fazer um apelo: a meu grande amigo e um de meus padrinhos de casamento - retrate-se urgentemente. Voce não merecia estar sendo lembrado por um vídeo esdrúxulo em que demoniza partidos políticos e se vangloria de algo que não passa de falta de conhecimento sobre política e de ausência de discernimento e sabedoria. Voce é muito melhor do que esse vídeo!
Reforço o apelo: a pastores, pastoras, líderes leigos evangélicos honestos - retratem-se. Aprendam. Busquem inteligência política.
Não podemos mais confundir moralismo com medo, passividade com neutralidade política. Não há neutralidade em política. Não há ausência de política no exercício do poder religioso. Não se confundam. não se enganem. As pregações pastorais são, sempre, políticas. São políticas por que exercícios de poder. Só quem não saiu do jardim de infância ainda pensa que política só tem a ver com partidos e eleições. Política tem a ver com o exercício do poder, em todas as relações, em todos os níveis da vida social. Pregação do evangelho é, sempre, política - posto que anúncio do Reino de Deus - poder que questiona todo e qualquer exercício dominador do poder, por pessoas, partidos, leis e instituições.
Evangélicos, aprendamos a viver a integralidade da missão. Não basta afirmar "missão integral", há que se aprender a integralidade da missão - e isto exige inteligência política.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
O olfato de YHWH
No mundo moderno, a filosofia e a ciência subordinaram o olfato (juntamente com o paladar e o tato) à visão e audição, posto que aquele pouco podia oferecer à construção de conceitos, comparativamente aos sentidos da visão e da audição. Montaigne chegou a afirmar (injustificadamente) que um mundo ideal é um mundo inodoro, posto que seria o mundo puro das crianças.
No mundo contemporâneo, o olfato volta a ocupar lugar de destaque na reflexão filosófica e científica, em função de suas aplicações práticas: “Nos dois últimos séculos os odores ganham espaço de investigação e a cultura do corpo desodorizado, motiva a produção imensurável de produtos que mascaram os odores do corpo: desodorantes, cremes, sabões, pós e pomadas. Surge uma nova apropriação do sentido do olfato pelo mercado, através da comercialização dos odores, com produtos médico/sanitários amplamente utilizados pela enfermagem. Incluso ao controle dos odores do corpo, se promovem o diagnóstico, tratamento e vigilância dos odores ambientais em todos os espaços da atividade humana, públicos ou privados.” (ESTÉTICA DOS ODORES: O SENTIDO DO OLFATO E A ENFERMAGEM)
O culto ao corpo agradavelmente aromatizado é profundamente ambíguo. Se, por um lado, exalta a beleza e o prazer; por outro, oculta sob o aroma de perfumes prazerosos o pútrido cheiro da morte que se estende às pessoas excluídas da vida consumista. Por isso, recuperar a discussão bíblica sobre o olfato é importante para a construção de uma teologia relevante para a humanidade contemporânea. Segue um início sugestivo dessa recuperação.
Um aroma ambíguo
Em Êxodo, Levítico e Números é usada 37 vezes a expressão “cheiro suave” referindo-se aos sacrifícios ofertados a Deus, por exemplo: Lv 6:21 “Numa assadeira se fará com azeite; bem embebida a trarás; em pedaços cozidos oferecerás a oferta de cereais por cheiro suave ao Senhor”. O termo incenso é usado 53 vezes nesses mesmos livros, indicando também o aroma que deveria permanecer no templo, especialmente durante os sacrifícios. Em Deuteronômio, porém, o sacrifício não é descrito como “cheiro suave” e somente uma vez é usado o termo “incenso” (33,10). No próprio Pentateuco encontramos a tensão que a visão sacrificial oferecia à reflexão teológica vétero-israelita. Essa tensão está presente sobremodo na tradição profética.
A ambigüidade do odor dos sacrifícios e do incenso está em que eles podem ser um péssimo cheiro perante o Senhor, como no caso da rebelião de Corá em Números 16: “35 Então saiu fogo do Senhor, e consumiu os duzentos e cinqüenta homens que ofereciam o incenso. 36 Então disse o Senhor a Moisés: 37 Dize a Eleazar, filho de Arão, o sacerdote, que tire os incensários do meio do incêndio; e espalha tu o fogo longe; porque se tornaram santos 38 os incensários daqueles que pecaram contra as suas almas; deles se façam chapas, de obra batida, para cobertura do altar; porquanto os trouxeram perante o Senhor, por isso se tornaram santos; e serão por sinal aos filhos de Israel. 39 Eleazar, pois, o sacerdote, tomou os incensários de bronze, os quais aqueles que foram queimados tinham oferecido; e os converteram em chapas para cobertura do altar, 40 para servir de memória aos filhos de Israel, a fim de que nenhum estranho, ninguém que não seja da descendência de Arão, se chegue para queimar incenso perante o Senhor, para que não seja como Corá e a sua companhia; conforme o Senhor dissera a Eleazar por intermédio de Moisés.”
A mesma valoração negativa se faz quando os sacrifícios e o incenso são, ou ofertados a outros deuses, ou encobrem a injustiça. Então, tornam-se abomináveis a YHWH, por exemplo:
(a) Ezequiel 6:13 Então sabereis que eu sou o Senhor, quando os seus mortos estiverem estendidos no meio dos seus ídolos, em redor dos seus altares, em todo outeiro alto, em todos os cumes dos montes, e debaixo de toda árvore verde, e debaixo de todo carvalho frondoso, lugares onde ofereciam suave cheiro a todos os seus ídolos;
(b) Isaías 1:13 Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação. As luas novas, os sábados, e a convocação de assembléias ... não posso suportar a iniqüidade e o ajuntamento solene!
(c) 2 Reis 17:11 (Israel) “... queimaram incenso em todos os altos, como as nações que o Senhor expulsara de diante deles; cometeram ações iníquas, provocando à ira o Senhor”; e 2 Reis 23:5 (Judá) “Destituiu os sacerdotes idólatras que os reis de Judá haviam constituído para queimarem incenso sobre os altos nas cidades de Judá, e ao redor de Jerusalém, como também os que queimavam incenso a Baal, ao sol, à lua, aos planetas, e a todo o exército do céu”.
Em oposição ao regime sacrificial, o Salmo 141:2 “Suba a minha oração, como incenso, diante de ti, e seja o levantar das minhas mãos como o sacrifício da tarde!” apresenta a oração como um perfume que sobe até Deus e o comove a agir favoravelmente!
Estes exemplos mostram que já na discussão teológica do antigo Israel o acesso sacrificial a Deus era questionado. Quando o autor de Hebreus afirma que o sacrifício de Jesus é definitivo e elimina a lógica sacrificial enquanto tal, está dando continuidade a este tipo de reflexão profética sobre a inutilidade do sacrifício. A persistência da lógica sacrificial no Cristianismo revela uma inconsistência nas práticas cristãs. Inconsistência que tem servido para a manutenção de situações de injustiça e opressão, legitimadas pela crença de que o sacrifício é um pequeno preço a ser pago para alcançar a vida eterna ou, na teologia da prosperidade, as bênçãos de Deus no presente. O Deus de judeus e cristãos, porém, não necessita de sacrifícios e abomina a lógica sacrificial. Autores como René Girard e Franz Hinkelammert, críticos da lógica sacrificial, mereceriam ser mais estudados em nossos dias posto que são por demais relevantes em sua celebração acadêmica da vida!
No mundo contemporâneo, o olfato volta a ocupar lugar de destaque na reflexão filosófica e científica, em função de suas aplicações práticas: “Nos dois últimos séculos os odores ganham espaço de investigação e a cultura do corpo desodorizado, motiva a produção imensurável de produtos que mascaram os odores do corpo: desodorantes, cremes, sabões, pós e pomadas. Surge uma nova apropriação do sentido do olfato pelo mercado, através da comercialização dos odores, com produtos médico/sanitários amplamente utilizados pela enfermagem. Incluso ao controle dos odores do corpo, se promovem o diagnóstico, tratamento e vigilância dos odores ambientais em todos os espaços da atividade humana, públicos ou privados.” (ESTÉTICA DOS ODORES: O SENTIDO DO OLFATO E A ENFERMAGEM)
O culto ao corpo agradavelmente aromatizado é profundamente ambíguo. Se, por um lado, exalta a beleza e o prazer; por outro, oculta sob o aroma de perfumes prazerosos o pútrido cheiro da morte que se estende às pessoas excluídas da vida consumista. Por isso, recuperar a discussão bíblica sobre o olfato é importante para a construção de uma teologia relevante para a humanidade contemporânea. Segue um início sugestivo dessa recuperação.
Um aroma ambíguo
Em Êxodo, Levítico e Números é usada 37 vezes a expressão “cheiro suave” referindo-se aos sacrifícios ofertados a Deus, por exemplo: Lv 6:21 “Numa assadeira se fará com azeite; bem embebida a trarás; em pedaços cozidos oferecerás a oferta de cereais por cheiro suave ao Senhor”. O termo incenso é usado 53 vezes nesses mesmos livros, indicando também o aroma que deveria permanecer no templo, especialmente durante os sacrifícios. Em Deuteronômio, porém, o sacrifício não é descrito como “cheiro suave” e somente uma vez é usado o termo “incenso” (33,10). No próprio Pentateuco encontramos a tensão que a visão sacrificial oferecia à reflexão teológica vétero-israelita. Essa tensão está presente sobremodo na tradição profética.
A ambigüidade do odor dos sacrifícios e do incenso está em que eles podem ser um péssimo cheiro perante o Senhor, como no caso da rebelião de Corá em Números 16: “35 Então saiu fogo do Senhor, e consumiu os duzentos e cinqüenta homens que ofereciam o incenso. 36 Então disse o Senhor a Moisés: 37 Dize a Eleazar, filho de Arão, o sacerdote, que tire os incensários do meio do incêndio; e espalha tu o fogo longe; porque se tornaram santos 38 os incensários daqueles que pecaram contra as suas almas; deles se façam chapas, de obra batida, para cobertura do altar; porquanto os trouxeram perante o Senhor, por isso se tornaram santos; e serão por sinal aos filhos de Israel. 39 Eleazar, pois, o sacerdote, tomou os incensários de bronze, os quais aqueles que foram queimados tinham oferecido; e os converteram em chapas para cobertura do altar, 40 para servir de memória aos filhos de Israel, a fim de que nenhum estranho, ninguém que não seja da descendência de Arão, se chegue para queimar incenso perante o Senhor, para que não seja como Corá e a sua companhia; conforme o Senhor dissera a Eleazar por intermédio de Moisés.”
A mesma valoração negativa se faz quando os sacrifícios e o incenso são, ou ofertados a outros deuses, ou encobrem a injustiça. Então, tornam-se abomináveis a YHWH, por exemplo:
(a) Ezequiel 6:13 Então sabereis que eu sou o Senhor, quando os seus mortos estiverem estendidos no meio dos seus ídolos, em redor dos seus altares, em todo outeiro alto, em todos os cumes dos montes, e debaixo de toda árvore verde, e debaixo de todo carvalho frondoso, lugares onde ofereciam suave cheiro a todos os seus ídolos;
(b) Isaías 1:13 Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação. As luas novas, os sábados, e a convocação de assembléias ... não posso suportar a iniqüidade e o ajuntamento solene!
(c) 2 Reis 17:11 (Israel) “... queimaram incenso em todos os altos, como as nações que o Senhor expulsara de diante deles; cometeram ações iníquas, provocando à ira o Senhor”; e 2 Reis 23:5 (Judá) “Destituiu os sacerdotes idólatras que os reis de Judá haviam constituído para queimarem incenso sobre os altos nas cidades de Judá, e ao redor de Jerusalém, como também os que queimavam incenso a Baal, ao sol, à lua, aos planetas, e a todo o exército do céu”.
Em oposição ao regime sacrificial, o Salmo 141:2 “Suba a minha oração, como incenso, diante de ti, e seja o levantar das minhas mãos como o sacrifício da tarde!” apresenta a oração como um perfume que sobe até Deus e o comove a agir favoravelmente!
Estes exemplos mostram que já na discussão teológica do antigo Israel o acesso sacrificial a Deus era questionado. Quando o autor de Hebreus afirma que o sacrifício de Jesus é definitivo e elimina a lógica sacrificial enquanto tal, está dando continuidade a este tipo de reflexão profética sobre a inutilidade do sacrifício. A persistência da lógica sacrificial no Cristianismo revela uma inconsistência nas práticas cristãs. Inconsistência que tem servido para a manutenção de situações de injustiça e opressão, legitimadas pela crença de que o sacrifício é um pequeno preço a ser pago para alcançar a vida eterna ou, na teologia da prosperidade, as bênçãos de Deus no presente. O Deus de judeus e cristãos, porém, não necessita de sacrifícios e abomina a lógica sacrificial. Autores como René Girard e Franz Hinkelammert, críticos da lógica sacrificial, mereceriam ser mais estudados em nossos dias posto que são por demais relevantes em sua celebração acadêmica da vida!
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Deus Imprevisivelmente Fiel
No post anterior destaquei a imprevisibilidade de Deus. No testemunho bíblico, Deus é retratado como imprevisível, mas fiel - imprevisivelmente fiel. Fiel é a pessoa em quem se pode confiar, de quem se pode depender quando necessário. A fidelidade é a permanência, em uma pessoa, das ações e dos valores que permitem a ela, e aquelas com quem ela se relaciona, se re-conhecer e ser re-conhecida. A fidelidade é a permanência na mudança, no devir constante da construção e reconstrução da identidade pessoal, social, cultural, política, religiosa. A fidelidade é a marca dos relacionamentos confiáveis, que dão segurança, estabilidade em meio à incerteza e imprevisibilidade da vida. Segundo Sponville, a fidelidade é a virtude da memória: “É este o dever da memória: piedade e gratidão pelo passado. O duro dever, o exigente dever, o imprescritível dever de ser fiel!” E se fidelidade é o dever da memória, reconhecemos a fidelidade de Javé em sua memória: pois Javé se lembra de seus compromissos, mas se esquece dos pecados de seu povo! Memória que não é só re-viver o passado, mas também re-significá-lo, transformando-o no presente e futuro.
Fidelidade é virtude relacional, e a sua validade depende do objeto de sua atração: "a fidelidade só deve dirigir-se ao que vale, e proporcionalmente – se ouso dizer, já que se trata de grandezas por natureza não-quantificáveis – ao valor do que vale. Fidelidade primeiro ao sofrimento, à coragem desinteressada, ao amor...” Embora não se referindo a Deus, o texto de Sponville é fiel ao caráter de Javé: deus fiel ao seu povo que sofre (Ele é o Deus que ouve o clamor), fiel à salvação de seu povo (desce e liberta corajosamente se solidarizando com o povo que sofre), fiel à aliança que estabelece com os seus (hesed divina, amor misericordioso e fiel que sustenta a relação familiar de Javé com seu povo).
Em meio às vicissitudes da história, Javé permanece fiel, e porque Ele é fiel, também "o justo viverá por sua fidelidade” (Hc 2,4). Javé é fiel sim, mas não previsível. Os caminhos de Deus não são os nossos caminhos, os pensamentos de Javé não são os nossos pensamentos (Is 55,8), por isso somos incapazes de capturar a Sua fidelidade e domesticar Javé conforme nossa imagem e semelhança. No entanto, a fidelidade de Javé não é sinônimo de previsibilidade. Javé é imprevisivelmente fiel: teimoso, se preferirmos um adjetivo menos polido; zeloso, se escolhermos um adjetivo extraído das Escrituras. O povo de Israel celebrava a fidelidade de Javé, mas vez após vez, foi confundido por Javé para aprender que não poderia controlar o seu deus como faziam outros povos do Antigo Oriente. Para aprender que somente Javé é Deus, somente Ele mesmo é Javé – deus e não ser humano.
Fidelidade é virtude relacional, e a sua validade depende do objeto de sua atração: "a fidelidade só deve dirigir-se ao que vale, e proporcionalmente – se ouso dizer, já que se trata de grandezas por natureza não-quantificáveis – ao valor do que vale. Fidelidade primeiro ao sofrimento, à coragem desinteressada, ao amor...” Embora não se referindo a Deus, o texto de Sponville é fiel ao caráter de Javé: deus fiel ao seu povo que sofre (Ele é o Deus que ouve o clamor), fiel à salvação de seu povo (desce e liberta corajosamente se solidarizando com o povo que sofre), fiel à aliança que estabelece com os seus (hesed divina, amor misericordioso e fiel que sustenta a relação familiar de Javé com seu povo).
Em meio às vicissitudes da história, Javé permanece fiel, e porque Ele é fiel, também "o justo viverá por sua fidelidade” (Hc 2,4). Javé é fiel sim, mas não previsível. Os caminhos de Deus não são os nossos caminhos, os pensamentos de Javé não são os nossos pensamentos (Is 55,8), por isso somos incapazes de capturar a Sua fidelidade e domesticar Javé conforme nossa imagem e semelhança. No entanto, a fidelidade de Javé não é sinônimo de previsibilidade. Javé é imprevisivelmente fiel: teimoso, se preferirmos um adjetivo menos polido; zeloso, se escolhermos um adjetivo extraído das Escrituras. O povo de Israel celebrava a fidelidade de Javé, mas vez após vez, foi confundido por Javé para aprender que não poderia controlar o seu deus como faziam outros povos do Antigo Oriente. Para aprender que somente Javé é Deus, somente Ele mesmo é Javé – deus e não ser humano.
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