domingo, 11 de julho de 2010

Expectativas e Realidade - um complexo relacionamento

Do ponto de vista abstrato, o tema deste post é "o que é ser humano". Trazendo para um espaço mais concreto e cotidiano, o tema pode ser descrito como "que posso esperar da minha vida?", ou, se você for uma pessoa mais proativa: "como conduzir a minha vida a fim de chegar aonde desejo?" Tratarei desse tema teologicamente.

Começo com as expectativas. Uma das descrições possíveis da pessoa humana à luz da Escritura cristã é a de que nós somos seres desejantes, seres cheios de expectativas, atraídos ao futuro, ao desconhecido, ao desafiador. Um exemplo dessa característica humana na Bíblia é o relato do "pecado" de Adão e Eva, em Gênesis capítulo 2. Atraídos pela expectativa de serem como deus, ambos decidiram comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Tradicionalmente, a leitura desse texto bíblico nas igrejas cristãs ressalta apenas o aspecto negativo do pecado - na tradição calvinista, uma de suas correntes teológicas afirma inclusive que o ser humano é "totalmente depravado", ou seja, que mesmo quando faz o bem, o mal está presente.

Penso que devemos olhar para o texto a partir de outro ponto de vista - o de quem procura descobrir o "bem" no "mal" praticado por Adão e Eva (representantes simbólicos de toda a humanidade). O "bem" nesse mal é o deixar aflorar o desejo, a pulsão para a vida além da rotina, para além do cotidiano, para além da mesmice. Adão e Eva, humanos, buscam transcender a si mesmos, procuram na sabedoria e no poder (a serpente é símbolo dessas duas práticas humanas) um caminho para, simplesmente, ir além.

Onde, então, o "mal" nesse "bem"? No excesso do objeto desejado, na expectativa absolutamente impossível de ser atingida, no exagero de transcendência almejada. "Querer ser como deus" é o objeto excessivo, insustentável, inatingível, impraticável. Exagero fruto de menos sabedoria, de menos inteligência, de menos percepção das possibilidades e limites da aventura da existência humana. Deixe-me dar um exemplo extraído do campo dos esportes. O futebol é uma dimensão integrante da cultura e da identidade brasileiras. A tal ponto está internalizado em nosso modo de ser que, para muita gente, o Brasil (a seleleção de futebol, que não é o Brasil, convenhamos...) tem a obrigação de jogar bem, bonito, dar espetáculo e ainda ganhar a Copa do Mundo - "A copa do mundo é nossa, com brasileiro, não há quem possa...". Expectativa completamente excessiva, exagerada - por isso, tanto choro e ranger de dentes quando deixamos a Copa apenas entre os oito melhores times do mundo. No esporte, perder faz parte do que deve ser esperado. Quem não sabe cultivar a expectativa da derrota não consegue, também, encontrar os limites da expectativa da vitória.

Seres desejantes que constantemente tropeçamos na realidade. Uma palavra tão imponente quanto indefinível. Não interessa entrar nos detalhes da reflexão filosófica sobre a realidade. Sejamos mais econômicos. Realidade é o que está entre nosso desejo e sua consumação, entre nossa expectativa e sua realização. Por isso falamos em "choque de realidade", que se dá quando o desejo não é consumado, a expectativa não é realizada, a transcendência não é alcançada.

Voltando para a teologia do humano na escritura cristã, a realidade com que temos de lidar em nossa condição de desejantes é a da morte, a da finitude, a da incompletude e imperfeição de nosso modo de ser e viver. Morte que, de inúmeras maneiras, se instala nas sociedades e suas economias, culturas, estruturas políticas, relações interpessoais, instituições, etc. Por isso, imagino, é que o autor de Eclesiastes escreveu que é melhor estar na casa do luto no que na da alegria - na casa da alegria o desejo não encontra limites, mas na casa do luto encontramos sabedoria para temperar nosso desejo com a dose certa de realidade.

Terminando ...

Parece-me que vivemos em uma época cultural em que a sabedoria do luto se esvaiu. Foi trocada pela excessividade da alegria, do prazer, da adrenalina. Excesso de consumir - coisas e pessoas, sonhos e ilusões, experiências e sensações. Exagero de transcendência - transcender a nossa finitude, encontrar o espaço ilimitado do desejo nunca mais postergado, sempre realizado na próxima compra, no próximo consumo, na próxima sensação ...

Tornamo-nos algo-além-do-humano e, assim, menos-do-que-humano; em uma paródia infeliz do sonho ambíguo de Nietzsche - das Übermensch. Ainda nietzscheanamente falando - nossa cultura matou Deus, e colocou no lugar dele o "sonho de consumo": o desejo ilimitado, a expectativa irrefreável, a transcendência inalcançável. Ao invés de irmos ao luto do divino, festejamos a sua ausência. Precisávamos, apenas, de amor à sabedoria - mas acabamos nos enredando nas "logias" (tecno-, -sofia, teo-, bio-, etc...). Imagino que se voltarmos à simplicidade do desejo-em-simplicidade, encontraremos formas muito mais interessantes e auto-realizadoras de satisfação.

terça-feira, 6 de julho de 2010

“Não carregarás o nome de YHWH, teu Deus, para a infâmia”

Eu sei que é uma tradução literariamente ruim, estamos acostumados com "não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão". A tradução, porém, tenta expressar com mais força, em português, o sentido da terceira palavra do Decálogo (Dez Palavras, mais conhecido na tradição cristã como os Dez Mandamentos). O texto descreve a pessoa (crente em um deus) como portadora, carregadora do nome divino – ou seja, o que a pessoa faz, repercute na pessoa de Deus. Se eu vivo uma vida nula, inútil, carrego o nome divino comigo para a nulidade. Se vivo uma vida injusta, carrego o nome divino juntamente comigo para o “Hall da Infâmia”. Por quê? Na cultura hebraica antiga, o nome não é apenas um rótulo, um identificador, mas uma aposta, uma descrição de caráter, uma declaração de identidade. Assim, carregar o nome divino é carregar a identidade divina, carregar a sua reputação, a sua respeitabilidade, a sua legitimidade. Daí, a palavra radical – “não carregarás ...”

A tradição judaica, desde tempos antigos, tem dado tanta importância a esta palavra que chegou a banir da fala pública o próprio nome divino. Quando, na leitura bíblica, um judeu encontra o nome de seu Deus, ao invés de pronunciá-lo, usa a palavra “Adonai” (Meu Senhor). Pode parecer excesso de literalismo, ou até mesmo de legalismo. Penso, porém, que devemos olhar para esta tradição com mais simpatia – é um excesso, sim, mas de reverência, de cuidado com a reputação divina. Excesso nascido do reconhecimento da nossa incapacidade (humana) de cumprir a promessa de nossa vocação divina: “como eu sei que, mais cedo ou mais tarde, vou caminhar para a infâmia, então é melhor cuidar preventivamente do Nome”.

Nós, cristãos, não sabemos bem o que fazer com esta palavra do Decálogo, até porque nosso Deus não tem nome. É apenas Deus, um título, um rótulo, um conceito. E abusamos desse “nome” em nossa fala cotidiana. Em algumas culturas, “Oh God!” é uma expressão gritada na hora do orgasmo (o que não é de todo ruim, pois o prazer é uma dádiva divina). Não, o problema não é a ligação do nome com o prazer, mas a banalização do nome, especialmente quando o prazer alcançado não tem nada a ver com a vocação divina para o prazer. No Brasil, expressões como “meu deus”ou “ai meu deus” (e semelhantes), tornaram-se interjeições proferidas a qualquer momento, ao ponto de não sabermos mais quando têm a ver com o clamor e a oração ou quando são apenas um substituto para um palavrão, ou outra interjeição qualquer.

Não! Não vou concluir o post com uma lição de moral. A questão aqui é teológica. A grande blasfêmia, a grande negação desta palavra do Decálogo está no modo metafísico da teologia. Que expressão majestosa, cheia de pompa e circunstância. Mas que é esse tal de “modo metafísico” da teologia? Uma teologia é metafísica quando ela é tão forte, tão cheia de si, tão segura e arrogante, que controla o Nome e o reduz a conceitos, modos de expressão litúrgica, experiências, doutrinas ou equivalentes. Em outras palavras, uma teologia metafísica chama tanto a atenção para si mesma, que esquecemos de Deus – ou, talvez melhor dizendo – confundimos a teologia com o próprio Deus e cremos mais na teologia do que em Deus.

Uma teologia que leva a sério esta terceira palavra do Decálogo suspende a certeza certa e forte sobre o Nome e fala de Deus em uma reverente atitude de certeza incerta. Certeza, não conceitual, mas pessoal – quando me perguntam sobre as provas da existência de Deus, só tenho uma: “conversamos diariamente” (uma prova que não prova nada, convenhamos!). Incerta, não por ignorância, mas por fé: “certeza do que esperamos, convicção do que não vemos”. Uma boa teologia, para mim, é uma teologia pós-metafísica, não-metafísica, ou fraca (ou qualquer outro rótulo que você preferir). É uma teologia que não chama a atenção para a sua própria palavra, mas encaminha a atenção para a palavra inefável (indizível) – o Nome. É uma teologia repleta de certezas incertas, que faz com que as pessoas que a lêem tenham mais perguntas do que respostas, mais admiração e espanto do que conhecimento sólido e definitivo; mais reverência e humildade do que intimidade e familiaridade com o Nome. Ou seja, uma boa teologia não carrega o Nome para a infâmia – se ela for para o Hall da Infâmia, irá sozinha. Mas, se chegar ao Hall da Fama, estará em excelente companhia!

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Religião Verdadeira!?

Uma das características do comportamento religioso, especialmente quando há uma organização institucional presente, é a crença de que só uma religião é verdadeira. E, é claro, a religião verdadeira é a minha. No caso do Cristianismo, é muito comum ouvir pessoas e instituições fazendo essa afirmação com base em textos bíblicos como "Eu sou o caminho, a verdade e a vida, neinguém vem ao Pai senão por mim", ou "E em nenhum outro há salvação; porque debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, em que devamos ser salvos".

Lidos superficialmente, estes textos realmente sugerem que só há uma religião verdadeira, a cristã. Entretanto, como a superfície dos textos normalmente não diz praticamente nada, precisamos prestar mais atenção ao que esses versículos de fato afirmam.

Note bem: não se está falando do Cristianismo, mas de Jesus - Ele é o único caminho e o único salvador. Não podemos confundir Jesus com as Igrejas Cristãs, nem com as doutrinas e confissões de fé, nem com as comunidades ditas cristãs. Jesus é uma pessoa, uma pessoa peculiar, divino-humana, diferente de todas as demais pessoas e irredutível a qualquer forma religiosa.

Jesus é, antes de tudo, um caminho, como diz o texto de João. Assim, sua proposta não é a de hierarquizar religiões, mas de hierarquizar caminhos, estilos de vida. Como se diz no sermão do monte, segundo o evangelho de Mateus: "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus". Não se trata, então, de religião, de confissão, mas de ação, de existência semelhante à do Messias Jesus. Quem faz a vontade do Pai celestial? Quem vive como Jesus, quem ama como Jesus, quem sofre como Jesus, quem ganha dinheiro como Jesus, quem morre como Jesus, quem ressuscita como Jesus ...

Ou, então, de acordo com um sermão apocalíptico de Jesus, segundo Mateus: "Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai. Possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me acolhestes; estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estava na prisão e fostes ver-me. Então os justos lhe perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? Quando te vimos forasteiro, e te acolhemos? ou nu, e te vestimos? Quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos visitar-te? E responder-lhes-á o Rei: Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes."

Ou, ainda, segundo Paulo, o apóstolo dos protestantes: "Portanto, és inescusável, ó homem, qualquer que sejas, quando julgas, porque te condenas a ti mesmo naquilo em que julgas a outro; pois tu que julgas, praticas o mesmo. E bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade, contra os que tais coisas praticam. E tu, ó homem, que julgas os que praticam tais coisas, cuidas que, fazendo-as tu, escaparás ao juízo de Deus? Ou desprezas tu as riquezas da sua benignidade, e paciência e longanimidade, ignorando que a benignidade de Deus te conduz ao arrependimento? Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo as suas obras; a saber: a vida eterna aos que, com perseverança em favor o bem, procuram glória, e honra e incorrupção; mas ira e indignação aos que são contenciosos, e desobedientes à iniqüidade; tribulação e angústia sobre a alma de todo homem que pratica o mal, primeiramente do judeu, e também do grego; glória, porém, e honra e paz a todo aquele que pratica o bem, primeiramente ao judeu, e também ao grego; pois para com Deus não há acepção de pessoas".

Deixo estes dois textos bíblicos sem comentário ou interpretação. Quem sabe a força chocante desses textos seja a melhor resposta para quem acredita ter a religião verdadeira e classifica todos os demais como idólatras, perdidos, etc. Quem sabe a força chocante desses textos seja o melhor desafio para quem acha que basta ser religioso para ser salvo.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Nova foto

Como na foto anterior, a cara do guri não aparecia, coloquei uma nova - só do gurizinho, que é a cara do avô, é claro!

Creio no Deus Criador, mas não sou criacionista!

Parece uma contradição, não é? Afirmar que Deus criou o mundo e negar ser criacionista. Parece, mas não é. Por quê?

1. O criacionismo é um conceito teológico-filosófico que afirma duas coisas simultaneamente: (a) Deus criou o mundo; (b) Deus criou o mundo exatamente da maneira como a Bíblia descreve. Ao afirmar essas duas coisas simultaneamente, nega uma terceira: (c) Logo, o mundo não pode ter passado por um processo evolutivo. Em síntese, criacionismo é um conceito teo-filosófico desenhado para combater o evolucionismo;

2. Evolucionismo, tão ruim quanto o criacionismo. O evolucionismo também afirma duas coisas simultaneamente: (a) o mundo se desenvolveu a partir de um início muito simples para uma realidade bastante complexa; (b) esse desenvolvimento, evolutivo em sua natureza, não tem lógica, a não ser a do acaso. Conseqüentemente, o evolucionismo nega uma terceira crença: (c) Logo, o mundo não pode ter sido criado por um ser inteligente. Assim como o criacionismo é um conceito desenhado para combater o evolucionismo, este é um conceito filo-teológico criado para combater o criacionismo;

3. E daí? Daí que os dois estão redondamente enganados. Para ser mais exato, matematicamente falando, os dois estão errados em 2/3 dois terços de suas definições. Em ambos os casos, acertam apenas na letra (a), e erram nas letras (b) e (c). Do ponto de vista da fé cristã, afirmar que Deus criou o mundo é uma afirmação correta, mas afirmar que ele o criou exatamente da maneira como está descrito na Bíblia é errado - assim como negar a possibilidade de um mecanismo evolutivo. Do ponto de vista da ciência, afirmar que o mundo passa por um processo de desenvolvimento do simples para o complexo é correto (pelo menos por enquanto), mas afirmar que esse proceso é uma evolução é errado, posto que evolução é um conceito que pressupõe uma inteligência normativa - assim como é errado, cientificamente falando, negar a possibilidade de um ser inteligente ter criado o mundo;

4. Que quer dizer a Bíblia quando fala do Deus criador e descreve o ato criador? A pista começa, para cristãos, em Hebreus 11,3: "Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem". É "pela fé" e não "pela ciência" que afirmamos que Deus criou o mundo pela sua palavra. Com isto em mente, voltamos para Gênesis 1-2 e podemos nos livrar do dilema "criacionismo vs. evolucionismo). Como? Em Gn 1-2 não encontramos descrições de como Deus criou o mundo, mas descrições de para quê Deus criou o mundo. Deus criou o mundo para que o ser humano cuidasse do mundo assim como Deus cuida do ser humano. (Ponto Final!)

5. E a evolução? Ora, se Gn 1-2 não descreve como, mas para quê Deus criou o mundo, os cientistas têm terreno livre para tentar descrever como o mundo chegou a ser o que é. E o evolucionismo? Bem, aí a coisa muda de figura, posto que o evolucionismo não só afirma como, mas também quer explicar para quê o mundo existe. Ao chegar a ese ponto, o evolucionismo deixa de ser ciência e se torna filosofia, moral, ou até mesmo religião. Não é à toa, então, que criacionistas e evolucionistas vivem brigando entre si - ambos consideram que têm o direito de explicar integralmente como & para quê o mundo existe;

6. Eu não quero entrar nessa briga, pois é uma briga errada. A briga boa, penso eu, junto com Richard Rorty, Gianni Vattimo, Charles Taylor e outros pensadores e pensadoras, tem a ver com os limites da religião e da ciência. A religião nos ajuda a explicar para quê o mundo existe e nós existimos nele. A ciência nos ajuda a explicar como o mundo existe e nós existimos nele. Quando ultrapassam esses limites, religião e ciência nos atrapalham. Quando ficam dentro desses limites e conversam uma com a outra, religião e ciência se ajudam e nos ajudam;

7. Creio, sim, em um Deus Criador. Creio, sim, que o mundo em que vivemos é fruto da ação de Deus. Por isso, aceito o trabalho de cientistas que se esforçam para explicar este mundo em que nós vivemos. Por isso, me esforço para entender e dizer a outras pessoas para quê vivemos neste mundo, dialogando com as ciências, com as filosofias, com as religiões. Por isso, não aceito que um cientista, supostamente cheio da autoridade da Verdade, me ensine para quê vivemos neste mundo. Por isso, não aceito que um teólogo, supostamente cheio da autoridade da Verdade, me ensine como este mundo existe. Por isso, não aceito que teólogos e cientistas briguem por motivos errados. Vale mais a pena conversar do que brigar, uma vez que nem teólogos, nem cientistas são capazes de oferecer respostas perfeitas e completas às importantes perguntas relativas ao como e ao para quê o mundo existe e nós existimos nele.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Religião e Ética, de novo

Uma semana sem postar - muito trabalho e muitos problemas com vírus (informáticos) e arquivos infectados ... Os imprevistos e as rotinas do dia-a-dia também atrapalham a disposição blogueirante.

Mas, vamos lá. Problemas informáticos à parte, que são de solução relativamente simples, na última postagem comecei a tratar de um problema bem mais complicado e de solução muito difícil, senão impossível. Para muitos praticantes da religião, o que realmente importa é o rito, o culto, ou o êxtase, a emoção, a interioridade. São esses que eu chamei de "espirituais", mas poderia chamar de subjetivistas, interioristas, intimistas, ou coisa semelhante. Para esse tipo de experiência religiosa, a relação com a ética é de radical distinção. Religião é uma coisa, ética é outra. A religião e a ética ficam em compartimentos separados do cérebro e do resto do corpo também. Possuem fontes diferentes e seguem caminhos diferentes. Por isso, é relativamente comum que tais religiosos sejam eticamente inconseqüentes. Apesar de autores e autoras que afirmam ser a ética predominantemente uma questão de decisões emocionais, penso e vejo a ética (minha e de outros)como uma prática predominantemente argumentativa, ou racional - seja uma racionalidade meramente instrumental (o mais curto caminho para conseguir o objetivo desejado), sejam outros tipos de racionalidade, mais abrangentes, mais amplos. Como a experiência religiosa drena a maior parte das energias para o investimento emocional, faltam forças para a reflexão ética que, passa, então, a ser subordinada à emoção religiosa. A religião ajuda a lidar com o stress do dia-a-dia, gerando um mundo virtual de bênçãos e maldições, de modo que a energia investida na religião acaba por se traduzir em "lucros" materiais e éticos - lucros virtuais ou reais.

A ética cristã "padrão", por outro lado, não segue um caminho distinto do da experiência religiosa cristã. Por quê? Porque a experiência religiosa cristã "neo-testamentária" é eminentemente pessoal e se constitui de fidelidade e amor (a Deus e ao próximo e a mim-mesmo). O problema a ser enfrentado pelos crentes cristãos é o da doutrina milenar das igrejas, que afirma que a experiência religiosa cristã é, eminentemente, de crença e obediência (à instituição mediadora da experiência). Os "espirituais" apenas trocaram a crença pela emoção, e a obediência passou a ser dirigida ao "agente do sagrado" mais próximo do crente - pastor, padre, santo, freira, bispo, apóstolo, ou seja qual for o nome ou título do mediador da experiência.

O desafio, então, é recanalizar nossa busca e nossas energias religiosas para a relação pessoal com Deus, mediante a relação pessoal com o próximo e comigo mesmo. A mediação da relação com Deus, então, não é mais a doutrina, nem a emoção, mas a fidelidade amorosa e o amor fiel ao Outro como Próximo e ao Si-Mesmo como Outro (Paul Ricoeur). Pode parecer uma descrição "humanista" ou "secularista" da fe cristã, mas não é. Veja os seguintes textos bíblicos: "se vos amardes uns aos outros como eu (Jesus) vos amei, todos saberão que sois meus discípulos" (João 13,34-35); ou "se alguém diz: 'Eu amo a Deus', e odeia seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, não pode amar a Deus, a quem não viu" (I João 4,20-21), ou "Mas dirá alguém: 'Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me a tua fé sem obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras" (Tiago 2,18); ou, para não dizer que não citei Paulo: "Pois toda a lei se cumpre numa só palavra, a saber: Amarás a teu próximo como a ti mesmo" (Gálatas 5,14), ou "Porque no Messias Jesus nem a circuncisão, nem a incircuncisão vale coisa alguma; mas sim a fé que opera pelo amor" (Gálatas 5,6).

Só assim, pelo menos na visão cristã neotestamentária, religião e ética caminham juntas - no caminho do amor ao próximo.

domingo, 6 de junho de 2010

Religião e Ética

Há muitos discursos anti-religiosos hoje em dia. A maior parte deles se baseia em simples preconceito, ora pessoal, ora intelectual - preconceito que podemos traçar pelo menos até as origens da Modernidade, quando por justas razões se criticava a instituição eclesiástica alinhada com os governos imperiais, o que se chama até hoje de Cristandade e é uma mancha terrível no Cristianismo. Justas razões servem, também, para encobrir más atitudes e o preconceito anti-religioso é uma dessas má atitudes encobertas por boas razões. Mas, deixo de lado o preconceito anti-religioso. Não gosto de defender as religiões, seja porque elas não precisam de defensores, seja porque há tanta pluralidade no campo religioso, inclusive dentro de grandes instituições religiosas, que defender ou atacar a religião, ou as religiões, sempre recairá em um generalismo inconseqüente.

Meu tema é outro. Um discurso apologético das religiões é o que afirma que a prática religiosa torna as pessoas mais éticas, mais conscientes da sua culpa, mais abertas à correção de seus próprios rumos. Bem, por um lado, conheço várias pessoas em relação às quais tais afirmações tenham validade - mas também conheço bem mais gente para as quais não têm.

Uma variante desse discurso apologético se dá no âmbito interno da disputa entre denominações cristãs. Uma disputa antiga e que, até onde consigo enxergar, não cessará tão cedo, ou mesmo jamais cessará. Mencionarei apenas uma dessas disputas, a disputa entre "espirituais" e "doutrinários". Evito os termos mais comuns dessa disputa "pentecostais" versus "tradicionais", exatamente por causa do generalismo perigoso que tais termos acarretam, como se todos os pentecostais fossem iguais e todos os tradicionais idem.

A questão, a meu ver, é que no âmbito do Cristianismo há, recorrentemente, uma disputa entre pessoas e instituições que assumem ser mais espirituais do que outras pessoas e instituições. O problema é que tais pessoas "mais espirituais" definem a espiritualidade a partir de sua própria experiência religiosa, que se torna o padrão para julgar outras pessoas e instituições.

Infelizmente, porém, dia após dia indícios de que tal espiritualidade superior não é compatível com a fé cristã se avolumam. Ser cristão não é uma questão de "experiência", ou de "espiritualidade" mas de amor ao próximo e integridade pessoal e institucional. De nada adiantam experiências fantásticas, êxtases cúlticos, fervores na oração, etc., se tais não se fazem acompanhar de amor e integridade. De fato, sem amor e integridade só nos restam desculpas e discursos auto-apologéticos e acusatórios contra os que não são como nós.

Precisamos reinventar o padrão da espiritualidade cristã, a partir da simplicidade do amor e da integridade (que não é sinônimo de perfeição!). Religião e ética não caminham juntas automaticamente, especialmente no Cristianismo. Ser cristão implica em diariamente enfrentar o desafio de caminhar em amor e integridade, porque cristãs e cristãos sabem que são "pecadores", ou seja, são pessoas que normalmente não caminham em amor e integridade, e sabem que não basta ter uma "experiência" espiritual fantástica na vida para deixarmos de ser o que somos.

Uma vez pecador, sempre pecador. A única diferença entre as pessoas é que algumas dentre as pecadoras assumem sua pecaminosidade e a enfrentam com amor e integridade. Outras, ou não a assumem, ou a enfrentam com "espiritualidade". Se você preferir linguagem religiosa, umas assumem o caminho do Messias Jesus, outras não. Mas só um lembrete: o caminho do Messias Jesus não é o caminho das Igrejas e das "espiritualidades" ...