terça-feira, 6 de abril de 2010

A culpa é dos amigos "da onça"

Amigo é coisa pra se guardar - dizia a canção. Mas guardar bem escondido. Alguns estão me atormentando, dizendo que coloquei uma foto de trinta anos atrás, só pra não parecer velho. Outros juram de pés juntos que não sou avô. Só pra parar com a falação, seus amigos da onça, troquei de foto. Esta é de novembro do ano passado. No shopping em Vila Velha, levando meu neto para conhecer o templo da sociedade de consumo. Em tempo: o Adrian já é freqüentador assíduo da livraria, o único lugar do shopping onde ele se sente em casa.
Que é que isto tem a ver com teologia? Sei lá, mas deve ser algo ligado com essa coisa que a gente chama vida. Ela vai acabando para uns, começando para outros. Entre o acabar e o começar, a gente vai teologando.

Ser "espiritual" - Desprendimento

O tema da espiritualidade sempre me desafiou. Não passam muitos meses e eu volto a ensinar, escrever ou debater sobre a aventura da fé. certo que teólogo não é a pessoa certa para escrever sobre este assunto. Ninguém acredita na espiritualidade de teólogos. Isso, no final das contas, é muito bom, pois nada mais complicado do que ser guru. Mais cedo do que se pensa, os conselhos do guru dão errado...
Mas, enfim, eu vivo tentando ser uma pessoa espiritual. Para mim, ser espiritual é, antes de qualquer outra coisa, ser desprendido. No Houaiss e no Michaelis, desprendida é a pessoa que foi desamarrada, foi solta, tornou-se independente - o que me conduz a Gálatas capítulo 5: para a liberdade o Messias Jesus nos libertou. Ser desprendido é, também, ser indiferente - em meu caso, indiferente aos bens materiais, roupas de grife, carro da moda, etc. Isso de vez em quando me arruma encrencas domésticas, pois depois de três décadas de trabalho, meu patrimônio é quase "zero". Mas isto me lembra de I João, "usar os bens deste mundo sem se escravizar a eles". Ser espiritual é ser desprendido, pois só assim a gente consegue viver para o outro. Como dizia Levinas, "além do egoísmo e do altruísmo está a religiosidade do self". No dicionário também se diz que desprendido é "exalado". Gostei dessa definição. Primeiro, por que ela me lembra de uma velha canção "dinheiro na mão é vendaval" - gosto de gastar, pouco mas bem, para viver feliz e não destruir ninguém. Segundo, porque nós, cristãs e cristãos, somos sopros, hálitos de Deus. E aí voltei para o hebraico e o grego em que "espírito" é vento. Ser espiritual é ser brisa suave, vento forte, ventania, tornado, furacão: mas Ser espiritual, só Deus. Nós somos (eu com certeza sou): Vento-Abel. Vento-Névoa. Vento-Nada.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Religiões, Filosofias e Ciências

A relação entre religião e ciência, assim como entre teologia e ciência, possui uma longa história. Nos tempos medievais, não havia distinção disciplinar ou epistêmica entre os diversos campos do saber humano, todos subsumidos na Universidade auspiciada pela Igreja Católica. Com o advento da Modernidade, a divisão epistêmica e disciplinar começa a surgir e, com ela, a necessidade de colocar em relação dois tipos de saber que, outrora, não se distinguiam claramente. Em um primeiro momento, como busca de libertação do controle eclesiástico, e apoiada pela crítica protestante (segundo a leitura de Foucault), a filosofia se separa da religião e se coloca em confronto com a mesma, posto que se considera porta-voz da verdade e da razão (uma coisa só, então). Posteriormente, as ciências específicas vão se tornando autônomas e também precisam definir sua relação com a filosofia e com a religião. Em relação à religião, se toma distância crítica, a partir da afirmação de que somente o método científico conduz à verdade, deixando à religião o campo do mito, da ilusão, da falsidade ou da ideologia, dependendo dos autores em questão.
Hoje em dia o quadro não é muito diferente. Onde se pensa que há um só caminho para a verdade, a relação é conflituosa. Fundamentalistas, na filosofia, nas ciências, ou na religião, vivem se degladiando em busca da auto-afirmação exclusiva de posse e guarda da verdade. Onde cientistas, filósofos e religiosos se entendem como pessoas incompletas, com conhecimentos incompletos, buscando Verdade que sabem jamais será encontrada em plenitude, a relação é amistosa. Entre os dois extremos, da negação e da aproximação, há o "em cima do muro" da indiferença.
O terreno de encontro tenso entre esses três tipos de saber se dá nas discussões bioéticas, posto que estas não só têm a ver com a definição do que é ser humano, como também têm a ver com a normatização do que se fazer com o humano - aborto, alimentação transgênica, pesquisa com células-tronco embrionárias, alteração dos limites biológicos mediante a tecnologia, etc.
Já passou o tempo em que se podia falar de religião e ciência como "magistérios não-interferentes" (NOMA, non-overlapping magisteria). Religiões, filosofias e ciências se entecruzam constantemente na definição do que é ser humano, do que é viver bem, do que é viver justamente em coletividade.
A questão é: irá vencer o bom-senso e prevalecer o diálogo, ou os fundamentalistas em cada time serão os manda-chuvas?

domingo, 4 de abril de 2010

Intolerância "evangélica"

Hoje não é dia para falar sobre intolerância. Domingo de Páscoa, dia de celebração da vitória da vida sobre a morte, da justiça sobre o pecado, da inclusão sobre a exclusão, da aceitação sobre a intolerância, da reconciliação! Entretanto, a imprensa noticia um episódio que, se fosse algo isolado, não mereceria qualquer comentário - jogadores de futebol "evangélicos" se recusam a distribuir ovos de páscoa em um lar espírita.
Não tenho nada a ver com a crença das pessoas envolvidas no episódio, nem quero julgá-las. O que me chamou a atenção foi o fato de que a atitude de intolerância "evangélica" não é algo isolado. Faz parte da pregação de várias igrejas e seus pastores e pastoras e tem gerado inclusive violência física, além da simbólica. Menos mal que movimentos em defesa da liberdade e da tolerância religiosa têm surgido em resposta a tais atos bárbaros.
Grafo "evangélico" entre aspas, por que cada vez mais esse termo perde o seu sentido. Ser "evangélico" hoje em dia no Brasil está se tornando sinônimo de pseudo-cristão, de gente que confunde dogmatismo com fé, egocentrismo com caridade, intolerância com liberdade religiosa.
Péssimo modo de acordar num domingo de Páscoa. Ainda bem que na cruz Deus reconciliou consigo mesmo todas as coisas, nos céus e na terra. Deixemos, pois, que o amor reconciliador de Deus faça a nossa cabeça, determine a nossa identidade.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Novo blog no ar!

Conforme comentei antes, Leonel, paulo e eu estamos começando um blog de leitura bíblica em três diferentes perspectivas, aberto à palpitação de leitoras e leitores.
O endereço é: http://bibliasobtresolhares.blogspot.com/. Apareçam e façam propaganda...
Abs pascais

Prá não dizer que não falei da Páscoa ...

Depois de amanhã celebra-se a Páscoa. Domingo da ressurreição. O que nos lembra - hoje celebra-se a paixão do Messias Jesus. Morte e ressurreição, cujos significados são tantos e tão intensos que até fica difícil falar de novo sobre os mesmos. Mas vamos lá, sem nenhuma pretensão de dar um novo e verdadeiro sentido ...
Morte e ressurreição de Cristo são também a morte de um "mundo" - ou seja, de um jeito de organizar a vida humana em sociedade (tanto no âmbito simbólico da cultura ou mundo-da-vida, quanto no concreto da economia, política, tecnologia e mídia), de dar sentido a essa vida e de fazer com que as pessoas adotem, comprem e sigam esse estilo de vida. O que faz a gente se maravilhar nestes dias é que as mesmas instituições que celebram a Páscoa são promotoras do jeito velho e defunto do "mundo" - consumismo, individualismo, hedonismo ... Não é à toa que são as empresas capitalistas as que mais se aproveitam deste feriado para vender, vender (ontem passei numa grande loja e haja fila ...). Como se costumava dizer: o capitalismo é o sistema idolátrico da morte, mas se apresenta como se fosse o sistema fiel da ressurreição.
A ressurreição do "mundo" morto carrega uma anomalia - não é a volta à vida. Aliás, quanta gente confunde ressurreição com "volta". Ressurreição não é voltar, é ir além, é transcender, é transformar. É utopia (palavra desgastada, mas que merece ressuscitar...)! Por isso, me espanto quando vejo que "crentes" não mais conseguem sonhar, imaginar um mundo diferente, uma outra forma de viver a vida no planetinha terra. Talvez seja culpa de nosso velho hábito de pensar a ressurreição como algo "fora deste mundo", "depois deste tempo". Ressurreição sim, aqui e agora, nova criação já iniciada. Nossas escatologias precisam de um banho de utopia, ou se tornarão meras falações sobre o "escatós" (não o temporal, mas o da privada...).
Feliz Páscoa!

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Novos Links

Adicionei dois links em blogs interessantes. Um deles é o blog do Ricardo, abuense, missionário atualmente no Uruguai, o país dito mais secularizado da AL. Conheci Ricardo em encontros de ABU e nos tempos da FTSA, só não vou dizer o apelido dele para não perder o amigo. O segundo é o de um ex-aluno da FTSA e agora (coitado) colega de profissão (professor de teologia), Jonathan. Vale a pena dar uma olhada.